Fascite plantar (dor plantar do calcâneo)
Fasciopatia da origem da fáscia plantar, causa comum de dor no calcanhar. O curso é variável: numa coorte de 174 pacientes acompanhados por uma média de 9,7 anos desde o início dos sintomas, 54% estavam assintomáticos no seguimento e 46% ainda tinham sintomas (Hansen et al.). A discussão de evidência abaixo cobre as medidas conservadoras de primeira linha e as intervenções de segunda linha, onde há mais controvérsia: ondas de choque (ESWT), infiltração de corticoide e proloterapia.
| População | Adultos com fascite plantar; nos ensaios de corticoide, a maioria dos participantes tinha dor havia vários meses. |
|---|---|
| Intervenção | Alongamento, palmilhas, ESWT (radial/focal), proloterapia com dextrose. |
| Comparador | Infiltração de corticoide; placebo/simulação; exercício. |
| Desfechos | Dor (VAS/NRS), função (FFI/AOFAS), espessura da fáscia (US). |
Alongamento e palmilhas (primeira linha) Evidência baixa
Revisão de 8 ECRs sobre alongamento: evidência de qualidade moderada a muito baixa de eficácia; o alongamento específico da fáscia plantar teve efeito maior sobre a dor que o alongamento da panturrilha (qualidade moderada). Palmilhas (19 ensaios; n = 1.660): evidência de qualidade moderada de redução de dor a médio prazo (7 a 12 semanas) em relação a palmilha simulada SMD −0,27 (IC95% −0,48 a −0,06), sem melhora de função e com incerteza sobre se a mudança é clinicamente importante; sem diferença entre palmilhas sob medida e pré-fabricadas em nenhum momento.
ESWT vs. infiltração de corticoide Evidência baixa
Metanálise de 16 ECRs (n = 1.121; média de 6 pontos na escala PEDro). Aos 3 meses, a ESWT foi melhor que a infiltração de corticoide na dor SMD −0,6 (IC95% −1,1 a −0,11), na espessura da fáscia SMD −0,4 (−0,8 a −0,01) e na função SMD 0,27 (0,12 a 0,44); aos 6 meses, na dor SMD −0,81 (−1,6 a −0,06) e na função SMD 0,67 (0,45 a 0,89). Eventos adversos mais frequentes: dor local e eritema leve. Uma metanálise anterior (6 ECRs) convergiu na dor: VAS MD −0,96 (−1,28 a −0,63), porém com heterogeneidade alta (I² = 96%) e sem diferença significativa nos escores de função aos 3 meses. O resumo da metanálise de 2024 não relata avaliação de certeza (GRADE), e a revisão Cochrane de corticoide classifica como de qualidade muito baixa a evidência das comparações com ESWT (5 ensaios): a magnitude do efeito deve ser lida com cautela.
Infiltração de corticoide: efeito precoce, não sustentado Evidência baixa
Revisão Cochrane (39 estudos; 2.492 adultos; a maioria dos estudos pequena e com alto risco de viés): em comparação com placebo ou nenhum tratamento, a infiltração pode reduzir discretamente a dor no curto prazo (< 1 mês) MD −6,38 na VAS 0–100; IC95% −11,13 a −1,64 — benefício potencial marginal diante da diferença mínima clinicamente importante adotada (8 pontos) —, mas não alterou a dor entre 1 e 6 meses MD −3,47; −8,43 a 1,48. A evidência para os demais desfechos e comparações foi de qualidade muito baixa. Numa análise exploratória de eventos adversos (21 ensaios), houve 2 rupturas de fáscia plantar e 3 infecções no local da injeção em 699 participantes, também com qualidade muito baixa. Essas estimativas sustentam, no máximo, alívio sintomático de curta duração.
Proloterapia com dextrose Evidência baixa
Metanálise de 6 ECRs (n = 388): a dextrose foi melhor que placebo ou exercício na dor no curto prazo SMD −1,163; IC95% −2,17 a −0,156 e no médio prazo SMD −1,394; −2,702 a −0,085, com intervalos de confiança muito amplos, mas inferior ao corticoide no curto prazo em dor SMD 0,781; 0,41 a 1,152 e em função SMD 0,526; 0,161 a 0,89, e inferior à ESWT em função no curto prazo SMD 0,484; 0,145 a 0,822. Os autores concluem que os efeitos foram comparáveis aos da ESWT e pedem protocolos padronizados e seguimento mais longo.
As medidas conservadoras de primeira linha (alongamento específico da fáscia plantar, palmilhas) têm evidência de qualidade moderada a muito baixa e efeito de magnitude incerta; palmilhas sob medida não superaram as pré-fabricadas. Na falha, as metanálises sugerem vantagem da ESWT sobre a infiltração de corticoide a médio prazo (3–6 meses), com certeza limitada; o corticoide fica reservado para alívio de curta duração, com consentimento sobre riscos. A proloterapia com dextrose tem evidência de baixa certeza e protocolos ainda não padronizados.
Versão em linguagem simples deste tema (o que é, por que o esporão raramente é o culpado, o que fazer em casa): Fascite plantar e esporão de calcâneo → · Exercícios e alongamentos →
Referências
- Cortés-Pérez I, Moreno-Montilla L, Ibáñez-Vera AJ, et al. Efficacy of extracorporeal shockwave therapy, compared to corticosteroid injections, on pain, plantar fascia thickness and foot function in patients with plantar fasciitis: A systematic review and meta-analysis. Clin Rehabil. 2024;38(8):1023-1043. Clin Rehabil
- Xiong Y, Wu Q, Mi B, et al. Comparison of efficacy of shock-wave therapy versus corticosteroids in plantar fasciitis: a meta-analysis of randomized controlled trials. Arch Orthop Trauma Surg. 2019;139(4):529-536. Arch Orthop Trauma Surg
- Lai WF, Yoon CH, Chiang MT, et al. The effectiveness of dextrose prolotherapy in plantar fasciitis: A systemic review and meta-analysis. Medicine (Baltimore). 2021;100(51):e28216. Medicine
- David JA, Sankarapandian V, Christopher PR, et al. Injected corticosteroids for treating plantar heel pain in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2017;6(6):CD009348. Cochrane
- Siriphorn A, Eksakulkla S. Calf stretching and plantar fascia-specific stretching for plantar fasciitis: A systematic review and meta-analysis. J Bodyw Mov Ther. 2020;24(4):222-232. J Bodyw Mov Ther
- Whittaker GA, Munteanu SE, Menz HB, et al. Foot orthoses for plantar heel pain: a systematic review and meta-analysis. Br J Sports Med. 2018;52(5):322-328. Br J Sports Med
- Hansen L, Krogh TP, Ellingsen T, et al. Long-Term Prognosis of Plantar Fasciitis: A 5- to 15-Year Follow-up Study of 174 Patients With Ultrasound Examination. Orthop J Sports Med. 2018;6(3):2325967118757983. Orthop J Sports Med
Entorse lateral aguda de tornozelo
Lesão musculoesquelética frequente, sobretudo no esporte; parte dos pacientes mantém déficits neuromusculares e sofre nova entorse (de Ruvo et al.). A pergunta clínica central é qual reabilitação ativa reduz recidiva e restaura função.
| População | Adultos com entorse lateral aguda de tornozelo. |
|---|---|
| Intervenção | Reabilitação baseada em exercício (proprioceptivo/funcional); terapia manual + exercício; mobilizações articulares (MWM/MOB). |
| Comparador | Cuidado usual; exercício isolado; entre técnicas manuais. |
| Desfechos | Recidiva em 12 meses, função (FAAM), ADM, dor. |
Reabilitação com exercício reduz recidiva Evidência moderada
Atualização de revisão sistemática com metanálise (14 ECRs; n = 2.182; 5 deles com baixo risco de viés geral). A reabilitação baseada em exercício reduziu a prevalência de recidiva em 12 meses vs. cuidado usual: OR 0,60 (IC95% 0,36 a 0,99), com limite superior do intervalo próximo de 1. A incidência de recidiva não diferiu (MD 0,027; −2,14 a 2,19). O volume de treino não se associou às chances de recidiva (sem relação dose-resposta), a qualidade terapêutica do exercício (i-CONTENT) foi de pobre a moderada, e os desfechos relatados pelo paciente e os clínicos ficaram inconclusivos. Há sinal de prevenção de recidiva, mas os dados são insuficientes para definir o conteúdo ideal do exercício.
Terapia manual + exercício vs. exercício isolado Evidência baixa
Metanálise de 3 ECRs (n = 180) em entorse aguda: acrescentar terapia manual ao exercício melhorou a dorsiflexão MD 8,79° (IC95% 6,81 a 10,77), a flexão plantar MD 8,85° (7,07 a 10,63), a função de membro inferior MD 1,20 (0,63 a 1,77) e a dor MD −1,23 (−1,73 a −0,72), em relação ao exercício isolado. Os próprios autores apontam como limitações a inclusão apenas de população esportiva ativa, a ausência de grupo controle puro ou placebo e a presença de viés de atenção. Tópico criticamente avaliado, com poucos estudos: efeito consistente nos três ensaios, mas com amostra pequena.
Escolha da técnica de mobilização Evidência baixa
ECR duplo-cego (n = 45 jogadores amadores de futebol, entorse aguda < 72 h; 6 sessões somadas a orientação, TENS, drenagem e exercícios proprioceptivos): a mobilização com movimento (MWM) da fíbula distal, com ou sem fita de deslizamento posterior (igualmente eficazes), resultou em melhor função (FAAM) em 12 e 52 semanas do que a mobilização ântero-posterior do tálus (MOB); a MOB foi superior na função às 2 semanas. Não houve diferença na impressão global de melhora nem nos desfechos secundários (dor, ADM, força, volume), e a fita não agregou benefício. Amostra pequena de atletas amadores: resultado exploratório.
A reabilitação ativa com exercício reduziu o risco de nova entorse em 12 meses em relação ao cuidado usual (evidência moderada), mas o conteúdo e a dose ideais do programa não estão definidos. A terapia manual como adjuvante ao exercício mostrou ganho de ADM e função em poucos ensaios pequenos, e a escolha da técnica de mobilização se apoia em um único ECR de 45 atletas; individualizar conforme o objetivo (atividades de vida diária vs. retorno ao esporte).
Versão em linguagem simples: Entorse de tornozelo → · Exercícios e progressão de carga em casa →
Referências
- Wagemans J, Bleakley C, Taeymans J, et al. Exercise-based rehabilitation reduces reinjury following acute lateral ankle sprain: A systematic review update with meta-analysis. PLoS One. 2022;17(2):e0262023. PLoS One
- de Ruvo R, Russo G, Lena F, et al. The Effect of Manual Therapy Plus Exercise in Patients with Lateral Ankle Sprains: A Critically Appraised Topic with a Meta-Analysis. J Clin Med. 2022;11(16):4925. J Clin Med
- Izaola-Azkona L, Vicenzino B, Olabarrieta-Eguia I, et al. Effectiveness of Mobilization of the Talus and Distal Fibula in the Management of Acute Lateral Ankle Sprain. Phys Ther. 2021;101(8):pzab111. Phys Ther
Tendinopatia do manguito rotador (dor subacromial)
Segundo Lazzarini et al., a tendinopatia do manguito rotador é a causa mais prevalente de dor no ombro e o terceiro distúrbio musculoesquelético mais comum, depois da dor lombar e da dor no joelho. As questões práticas são quanto a fisioterapia estruturada supera uma orientação de qualidade e qual o papel real da infiltração subacromial de corticoide.
| População | Adultos com tendinopatia/dor subacromial do manguito rotador (no GRASP: novo episódio nos últimos 6 meses; excluídos ruptura de espessura total com indicação cirúrgica e pacientes considerados para cirurgia). |
|---|---|
| Intervenção | Exercício progressivo supervisionado; infiltração subacromial de corticoide. |
| Comparador | Sessão única de melhor orientação (best-practice advice); fisioterapia isolada; sem injeção. |
| Desfechos | Dor e função (SPADI), qualidade de vida, eventos adversos. |
Exercício progressivo × orientação de qualidade Evidência moderada
ECR pragmático multicêntrico, fatorial 2 × 2, GRASP (n = 708; 20 serviços do NHS no Reino Unido). Um programa de exercício progressivo (≤ 6 sessões) não foi superior a uma única sessão de melhor orientação com fisioterapeuta, no SPADI ao longo de 12 meses: diferença média ajustada −0,66 (IC99% −4,52 a 3,20). Não foram relatados eventos adversos graves. O ensaio não mostra que um maior número de sessões supervisionadas acrescente benefício, e os resultados valem para a população descrita acima.
Infiltração subacromial de corticoide: alívio curto, sem ganho sustentado Evidência baixa
No GRASP, a injeção melhorou discretamente o SPADI às 8 semanas (dif. ajustada −5,64; IC99% −9,93 a −1,35), mas não ao longo de 12 meses (−1,11; −4,47 a 2,26). Metanálise de 15 ECRs (n = 1.785): o corticoide isolado não pareceu mais eficaz que as intervenções fisioterapêuticas; associado à fisioterapia, pode dar melhora pequena a moderada de dor e função no curto prazo, sem superioridade a médio e longo prazo. A certeza da evidência foi classificada pelos autores como moderada a, na maior parte, muito baixa.
Orientação e exercício conduzidos por fisioterapeuta são a base do tratamento nos estudos revisados. O GRASP não encontrou vantagem de um programa de até 6 sessões sobre uma única sessão de orientação de qualidade em 12 meses; a decisão sobre o número de sessões pode ponderar custo e preferência. A infiltração subacromial de corticoide trouxe, no máximo, melhora pequena e transitória no curto prazo e não alterou o desfecho de 12 meses; se usada, em dor limitante, com ciência dos possíveis eventos adversos. Estes estudos não avaliaram cirurgia nem incluíram pacientes com ruptura que a exigisse.
Versão em linguagem simples: Dor no ombro → · Exercícios de fortalecimento e mobilidade →
Referências
- Lazzarini SG, Buraschi R, Pollet J, et al. Effectiveness of Additional or Standalone Corticosteroid Injections Compared to Physical Therapist Interventions in Rotator Cuff Tendinopathy: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. Phys Ther. 2025;105(3):pzaf006. Phys Ther
- Hopewell S, Keene DJ, Marian IR, et al. (GRASP trial). Progressive exercise compared with best practice advice, with or without corticosteroid injection, for the treatment of patients with rotator cuff disorders (GRASP): a multicentre, pragmatic, 2 × 2 factorial, randomised controlled trial. Lancet. 2021;398(10298):416-428. Lancet
Tendinopatia do tendão de Aquiles
Tendinopatia por sobrecarga (formas não-insercional e insercional). O exercício de carga é oferecido como primeira linha; a controvérsia está no valor real dos adjuvantes (ondas de choque, injeções) somados ao exercício.
| População | Adultos com tendinopatia do Aquiles (insercional e não-insercional); nos ensaios em corredores, sintomas > 3 meses. |
|---|---|
| Intervenção | Programa de carga (excêntrico / resistido lento); adjuvantes (ESWT/ondas de pressão radial). |
| Comparador | Exercício isolado; placebo/sham. |
| Desfechos | Dor e função (VISA-A), recorrência. |
Exercício de carga é a primeira linha Evidência baixa
Revisão sistemática viva com metanálise em rede (68 ECRs em tendinopatia do Aquiles, patelar e dor trocantérica maior): todas as comparações pareadas com diferenças estatística e clinicamente significativas se basearam em evidência de força baixa ou muito baixa, e nenhum adjuvante — isolado ou somado ao exercício — mostrou-se convincentemente superior ao exercício isolado. Os autores recomendam manter o exercício como monoterapia de primeira linha por ao menos 3 meses antes de considerar um adjuvante. Para o Aquiles, a opção descrita como promissora (injeção de alto volume com corticoide junto ao exercício excêntrico) também se apoiava em evidência de força baixa a muito baixa.
ESWT na forma insercional não potencializa o exercício Evidência moderada
ECR duplo-cego, placebo-controlado, de centro único, nível I (n = 119): adicionar ondas de choque radiais (3 sessões, a cada 2 semanas) ao exercício excêntrico (3 meses) não melhorou o VISA-A em 24 semanas (63,2 vs 62,3; p = 0,876); ambos os grupos melhoraram, sem diferenças entre eles em nenhum desfecho. A taxa de falha foi maior no grupo ESWT (38,3% vs 11,5%) e a de recorrência, menor (17,0% vs 34,6%) — achados secundários a interpretar com cautela, sem ganho no desfecho primário. Nenhuma complicação foi relatada.
Forma não-insercional em corredores: possível ganho adicional com ondas de pressão Evidência baixa
ECR de três braços, não cego (n = 46 corredores com sintomas > 3 meses): exercício + ondas de pressão radial (3 sessões semanais) superou o exercício isolado no VISA-A aos 3 meses (melhora média de 33 vs 18 pontos; p = 0,023); exercício + ondas + fotobiomodulação não diferiu do exercício isolado (25 vs 18 pontos; p = 0,12). Todos os grupos atingiram melhora clínica, o que reforça a centralidade do exercício. Amostra pequena e sem cegamento: sinal exploratório.
O núcleo do tratamento é o programa de carga progressiva (excêntrico / resistido lento) por ≥ 3 meses, com ênfase em progressão e adesão. Segundo a metanálise em rede, nenhum adjuvante demonstrou superioridade convincente; ondas de choque só após falha do exercício bem conduzido, sabendo que o benefício é incerto: nulo no ensaio duplo-cego da forma insercional e sugerido apenas por um ensaio pequeno e não cego na forma não-insercional.
Versão em linguagem simples (protótipo de exercícios de carga e progressão): Exercícios e alongamentos →
Referências
- Challoumas D, Crosbie G, O'Neill S, et al. Effectiveness of Exercise Treatments with or without Adjuncts for Common Lower Limb Tendinopathies: A Living Systematic Review and Network Meta-analysis. Sports Med Open. 2023;9(1):71. Sports Med Open
- Mansur NSB, Matsunaga FT, Carrazzone OL, et al. Shockwave Therapy Plus Eccentric Exercises Versus Isolated Eccentric Exercises for Achilles Insertional Tendinopathy: A Double-Blinded Randomized Clinical Trial. J Bone Joint Surg Am. 2021;103(14):1295-1302. J Bone Joint Surg Am
- Tenforde AS, Pham L, Gaudette LW, et al. Exercise, radial pressure waves, and photobiomodulation for management of non-insertional Achilles tendinopathy in runners: a three-arm non-blinded randomised control trial. BMJ Open Sport Exerc Med. 2025;11(4):e002442. BMJ Open Sport Exerc Med
Pós-operatório de fratura de membros inferiores — carga precoce
Após fixação de fratura de tornozelo, o hábito histórico é descarga por 6 semanas. A evidência recente de alta qualidade testa se a carga precoce protegida (por volta de 2 semanas) é segura e vantajosa. A base mais robusta é em fratura de tornozelo — extrapolar para outros segmentos exige cautela.
| População | Adultos (≥ 18 anos) após fixação cirúrgica de fratura instável de tornozelo (o WAX excluiu pacientes com haste de retropé e sem sensibilidade protetora). |
|---|---|
| Intervenção | Carga precoce (~2 semanas de pós-op). |
| Comparador | Carga tardia (~6 semanas). |
| Desfechos | Função (OMAS), retorno ao trabalho/vida, complicações. |
Carga precoce é não-inferior em função aos 4 meses Evidência moderada
ECR pragmático, multicêntrico, de não-inferioridade, sem mascaramento de participantes e clínicos (WAX; n = 561, 23 hospitais do NHS). Na análise por protocolo, aos 4 meses, o OMAS foi maior com carga precoce (diferença ajustada 4,47; IC95% 0,58 a 8,37; p = 0,024), atendendo à não-inferioridade (margem pré-especificada de −6 pontos); no teste de superioridade por intenção de tratar, 4,42 (0,53 a 8,32). A diferença é pequena e o limite inferior do intervalo fica próximo de zero. Complicações semelhantes (16% vs 14%; OR ajustada 1,18; IC95% 0,80 a 1,75) e probabilidade > 80% de ser custo-efetiva. Desfecho primário disponível em 480 de 561 participantes (86%).
Metanálise: ganho funcional precoce e retorno mais rápido, sem diferença em 12 meses Evidência moderada
Metanálise de 10 ECRs (n = 1.276): melhor OMAS com carga precoce às 6 semanas (MD 5,86; IC95% 3,64 a 8,08) e entre 12 semanas e 4 meses (MD 3,17; 0,84 a 5,50), sem diferença aos 12 meses (MD 1,86; −0,50 a 4,22); retorno ao trabalho/vida diária mais precoce (MD −1,75; −2,52 a −0,98). Complicações sem diferença significativa (RR 1,34; 0,96 a 1,86), embora o intervalo de confiança não exclua um aumento relevante.
Em fratura instável de tornozelo fixada cirurgicamente, a carga precoce (~2 semanas) foi não-inferior à tardia (~6 semanas) em função aos 4 meses no WAX, com complicações semelhantes; a metanálise sugere recuperação funcional e retorno ao trabalho/vida mais precoces, sem diferença aos 12 meses. O WAX excluiu haste de retropé e pacientes sem sensibilidade protetora, e as fontes revisadas não oferecem dados para extrapolar a fraturas periarticulares complexas (p. ex. platô tibial, pilão) ou a outros segmentos. Individualizar por padrão da fratura, qualidade óssea, sensibilidade protetora e adesão.
Versão em linguagem simples (retomada de carga e progressão orientada): Exercícios e progressão de carga →
Referências
- Bretherton CP, Achten J, Jogarah V, et al. (WAX trial). Early versus delayed weight-bearing following operatively treated ankle fracture (WAX): a non-inferiority, multicentre, randomised controlled trial. Lancet. 2024;403(10446):2787-2797. Lancet
- Wu F, Liu P, Ou Z, et al. Early versus delayed weightbearing for postoperative ankle fractures: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Arch Orthop Trauma Surg. 2025;145(1):402. Arch Orthop Trauma Surg
Pós-operatório de endoscopia de coluna (discectomia endoscópica)
Na hérnia de disco lombar com radiculopatia, a discectomia endoscópica (full-endoscopic / transforaminal — PTED) disputa espaço com a microdiscectomia. Duas perguntas importam: a técnica entrega desfecho equivalente? E o que se sabe sobre a reabilitação no pós-operatório?
| População | Adultos com hérnia de disco lombar e radiculopatia (ciática); no ensaio PTED, dor irradiada para a perna havia pelo menos 6 semanas. |
|---|---|
| Intervenção | Discectomia endoscópica (PTED / full-endoscopic) + reabilitação pós-op. |
| Comparador | Microdiscectomia; cuidado pós-op usual. |
| Desfechos | Dor na perna (VAS), incapacidade (ODI), complicações, retorno ao trabalho, mobilização. |
Endoscópica é não-inferior à microdiscectomia Evidência moderada
ECR multicêntrico de não-inferioridade (4 hospitais na Holanda; n = 613 randomizados; análise primária com 179 PTED e 309 microdiscectomias abertas, excluídos 125 casos de curva de aprendizado da PTED): a PTED foi não-inferior na dor da perna a 12 meses (VAS 0–100: mediana 7,0 vs 16,0; diferença entre grupos 7,1; IC95% 2,8 a 11,3), com menos perda sanguínea, internação mais curta e mobilização mais precoce; reoperação em 5% vs 6% no primeiro ano. Os autores ressaltam que as diferenças são pequenas e podem não ter relevância clínica.
Menor morbidade de ferida e retorno mais rápido; coortes sugerem mais revisões Evidência moderada
Metanálise de 17 ECRs (n = 2.238; certeza da evidência moderada segundo os autores): eficácia descompressiva e trajetórias de dor na perna comparáveis; a via endoscópica reduziu infecção (RR 0,30; IC95% 0,12 a 0,78), má cicatrização (RR 0,25; 0,07 a 0,96) e hematoma (RR 0,47; 0,23 a 0,94), e encurtou o retorno ao trabalho (MD −22,68 dias; −32,85 a −12,50), ao custo de maior exposição à radiação, sem superioridade consistente de longo prazo em dor ou incapacidade. Outra metanálise (6 ECRs e 13 coortes): nos ECRs, risco menor de complicações gerais (RR 0,55; 0,31 a 0,98; 5,5% vs 10,4%); nas coortes, risco menor de lesão dural (RR 0,46; 0,22 a 0,96), mas maior de disestesia transitória (RR 3,70; 1,54 a 8,89), fragmento residual (RR 5,29; 2,67 a 10,45) e cirurgia de revisão (RR 1,53; 1,12 a 2,08). Os autores classificam a qualidade da evidência como moderada a baixa e alertam para o risco de viés.
Reabilitação após cirurgia de disco: evidência de baixa qualidade Evidência baixa
Revisão Cochrane de reabilitação após cirurgia de disco lombar (22 ECRs; n = 2.503; todos os participantes foram submetidos a discectomia ou microdiscectomia convencional, não endoscópica): qualidade geral baixa a muito baixa. Programas iniciados logo após a cirurgia não foram mais eficazes que os controles. Exercícios iniciados 4–6 semanas após a cirurgia reduziram a dor mais rápido que nenhum tratamento (SMD −0,90; IC95% −1,55 a −0,24; 5 ECRs; qualidade muito baixa) e melhoraram a função no curto prazo (SMD −0,67; −1,22 a −0,12; qualidade baixa), sem diferença de função no longo prazo (SMD −0,22; −0,49 a 0,04); nenhum estudo relatou aumento de reoperação. Não há, nas fontes revisadas, ensaio de reabilitação específico para discectomia endoscópica. Em artrodese lombar (evidência indireta; 18 ECRs, n = 1.402), o exercício foi melhor que o cuidado usual em incapacidade e dor no curto prazo (SMD −0,41 e −0,36) e a reabilitação multimodal (exercício + treino cognitivo-comportamental) superou o exercício isolado em incapacidade e medo ligado à dor (SMD −0,31 e −0,64), com qualidade baixa e efeitos que desapareceram além de 1 ano.
A discectomia endoscópica mostrou desfecho de dor na perna não-inferior ao da microdiscectomia no ensaio PTED, e as metanálises apontam menor morbidade de ferida e retorno ao trabalho mais rápido (vantagem sobretudo perioperatória), com mais radiação e dados de coortes sugerindo mais revisões; a curva de aprendizado é relevante (125 casos de curva de aprendizado no ensaio holandês). Quanto à reabilitação pós-operatória, a evidência é de qualidade baixa a muito baixa: exercício a partir de 4–6 semanas parece acelerar a redução de dor e incapacidade sem aumentar reoperação, sem ensaios específicos de discectomia endoscópica.
Versão em linguagem simples: Hérnia de disco lombar → · Ciática →
Referências
- Gadjradj PS, Rubinstein SM, Peul WC, et al. Full endoscopic versus open discectomy for sciatica: randomised controlled non-inferiority trial. BMJ. 2022;376:e065846. BMJ
- Patel S, Nischal SA, Kale KM, et al. Full Endoscopic versus Microscopic Lumbar Discectomy for Lumbar Disc Herniation: A Meta-analysis of Randomized-controlled Trials. Spine (Phila Pa 1976). 2026 (publicação antecipada online em 18 jun 2026). Spine
- Yang CC, Chen CM, Lin MH, et al. Complications of Full-Endoscopic Lumbar Discectomy versus Open Lumbar Microdiscectomy: A Systematic Review and Meta-Analysis. World Neurosurg. 2022;168:333-348. World Neurosurg
- Oosterhuis T, Costa LO, Maher CG, et al. Rehabilitation after lumbar disc surgery. Cochrane Database Syst Rev. 2014;(3):CD003007. Cochrane
- Bogaert L, Thys T, Depreitere B, et al. Rehabilitation to improve outcomes of lumbar fusion surgery: a systematic review with meta-analysis. Eur Spine J. 2022;31(6):1525-1545. Eur Spine J
Lombalgia crônica inespecífica
Segundo Nicol et al., a lombalgia crônica é um problema de saúde pública e ocupacional, com grande carga profissional, econômica e social. As recomendações das diretrizes internacionais são em grande parte convergentes, e um dos desafios é a implementação: no ensaio TARGET, imagem e opioides foram prescritos nas primeiras consultas por lombalgia aguda em proporções discordantes das diretrizes.
| População | Adultos com lombalgia inespecífica (sem bandeira vermelha / patologia específica). O ensaio TARGET incluiu adultos com lombalgia aguda de alto risco para cronificação. |
|---|---|
| Intervenção | Exercício, atividade física, educação em dor; cuidado estratificado por risco; reabilitação multidisciplinar. |
| Comparador | Cuidado usual; repouso, imagem de rotina, opioides. |
| Desfechos | Dor, incapacidade, transição para cronicidade, retorno à atividade. |
Diretrizes convergem: não-farmacológico no centro Recomendação de diretriz
Duas revisões de diretrizes (Nicol: cinco revisões de diretrizes publicadas entre 2018 e 2021, mais a diretriz francesa de 2021; Oliveira: 15 diretrizes de atenção primária). Na lombalgia crônica, a maioria das diretrizes recomenda tratamentos não farmacológicos — exercício, atividade física, fisioterapia e educação —, com reabilitação multidisciplinar, em casos selecionados, como tratamento central, e recomenda pesquisar bandeiras amarelas, azuis e pretas para estratificar o risco de cronicidade. Sobre imagem, Oliveira relata que as diretrizes desencorajam o uso rotineiro e o reservam à suspeita de patologia grave, enquanto Nicol aponta que a relevância do exame clínico e da imagem é debatida. Há divergência quanto a fármacos: Oliveira lista AINE e antidepressivos para a lombalgia crônica (e opioides fracos por curtos períodos na lombalgia aguda), enquanto Nicol descreve a farmacoterapia como debatida e a oferecer a pacientes selecionados.
Estratificação de risco não reduziu a cronificação na prática real Evidência moderada
Ensaio pragmático em cluster (TARGET; 77 clínicas de atenção primária em 4 sistemas de saúde dos EUA) em adultos com lombalgia aguda de alto risco (STarT Back): a abordagem estratificada (alertas eletrônicos que encaminhavam à fisioterapia psicologicamente informada; cerca de 50% foram encaminhados à fisioterapia vs 30% no controle, e 36% à fisioterapia psicologicamente informada) não reduziu a transição para lombalgia crônica em 6 meses (47% vs 51%; OR 0,83; IC95% 0,64 a 1,09) nem a incapacidade (diferença −2,1; −4,9 a 0,6). Opioides e imagem foram prescritos em 22%–25% e 23%–26% das consultas iniciais (intervenção e controle), discordante das diretrizes. É um resultado de implementação em atenção primária, e não uma avaliação isolada da eficácia da fisioterapia psicologicamente informada.
As diretrizes revisadas convergem em manter o paciente ativo, com exercício e educação, e em rastrear fatores psicossociais; imagem de rotina é desencorajada na ausência de suspeita de patologia grave. Sobre medicamentos, as fontes divergem: opioides fracos por curtos períodos aparecem para a lombalgia aguda, e a farmacoterapia na lombalgia crônica é debatida e restrita a pacientes selecionados. A estratificação por risco, implementada em larga escala na atenção primária (TARGET), não reduziu a cronificação, e a lacuna entre a diretriz e a prática persiste.
Versão em linguagem simples: Lombalgia (dor lombar) → · Postura, exercícios e rotina em casa →
Referências
- Nicol V, Verdaguer C, Daste C, et al. Chronic Low Back Pain: A Narrative Review of Recent International Guidelines for Diagnosis and Conservative Treatment. J Clin Med. 2023;12(4):1685. J Clin Med
- Oliveira CB, Maher CG, Pinto RZ, et al. Clinical practice guidelines for the management of non-specific low back pain in primary care: an updated overview. Eur Spine J. 2018;27(11):2791-2803. Eur Spine J
- Delitto A, Patterson CG, Stevans JM, et al. (TARGET trial). Stratified care to prevent chronic low back pain in high-risk patients: The TARGET trial. A multi-site pragmatic cluster randomized trial. EClinicalMedicine. 2021;34:100795. EClinicalMedicine
Ciática por hérnia de disco lombar — conservador × cirurgia
A pergunta clínica na ciática por hérnia de disco lombar é de timing e magnitude: quanto a cirurgia acelera o alívio, e por quanto tempo essa vantagem se mantém.
| População | Adultos com ciática por hérnia de disco lombar confirmada por imagem. |
|---|---|
| Intervenção | Discectomia / microdiscectomia. |
| Comparador | Tratamento não-cirúrgico padronizado; injeção epidural de corticoide. |
| Desfechos | Dor na perna, incapacidade (ODI), eventos adversos. |
Cirurgia acelera o alívio, mas a vantagem declina Evidência baixa
Metanálise de 24 ECRs (BMJ); metade deles comparou discectomia com tratamento não cirúrgico ou infiltração epidural (n = 1.711). Em relação ao tratamento não cirúrgico, a discectomia reduziu a dor na perna (escala 0–100) com efeito moderado no imediato (MD −12,1; IC95% −23,6 a −0,5) e no curto prazo (−11,7; −18,6 a −4,7), pequeno no médio prazo (−6,5; −11,0 a −2,1) e negligenciável aos 12 meses (−2,3; −4,5 a −0,2). Para incapacidade, os efeitos foram pequenos, negligenciáveis ou nulos. Eventos adversos semelhantes (RR 1,34; 0,91 a 1,98). Certeza muito baixa a baixa; os autores concluem que a discectomia pode ser uma opção para quem considera que o alívio rápido compensa os riscos e custos da cirurgia.
Na ciática persistente (4–12 meses), microdiscectomia foi superior em um ECR unicêntrico Evidência baixa
ECR unicêntrico (NEJM; n = 128, 64 por grupo, ciática de 4 a 12 meses e hérnia em L4-L5 ou L5-S1): a microdiscectomia foi superior a 6 meses de cuidado não cirúrgico padronizado na dor na perna aos 6 meses (2,8 vs 5,2 na escala 0–10; diferença ajustada 2,4; IC95% 1,4 a 3,4); 34% do grupo conservador cruzou para a cirurgia (mediana de 11 meses). Nove pacientes tiveram eventos adversos associados à cirurgia e um foi reoperado por recidiva. Na análise secundária de 2 anos (seguimento de cerca de 70%; 38% de crossover), a dor na perna foi 2,8 vs 4,2 (efeito 1,3; IC95% 0,3 a 2,4), a favor da cirurgia, mas a diferença não superou a mínima clinicamente importante, provavelmente em razão do crossover.
As fontes revisadas indicam que a cirurgia antecipa o alívio da dor na perna — vantagem maior no curto prazo, que diminui ao longo do tempo (certeza muito baixa a baixa) —, e um ECR unicêntrico em ciática persistente de 4 a 12 meses mostrou benefício cirúrgico aos 6 meses, não clinicamente importante aos 2 anos. A cirurgia pode ser considerada em quem tem dor refratária ou valoriza o alívio rápido, após decisão compartilhada. Sinais de síndrome de cauda equina ou déficit motor progressivo exigem avaliação cirúrgica urgente e ficam fora dessa lógica eletiva (conduta consensual, não derivada dos estudos acima).
Versão em linguagem simples: Ciática → · Hérnia de disco lombar →
Referências
- Liu C, Ferreira GE, Abdel Shaheed C, et al. Surgical versus non-surgical treatment for sciatica: systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ. 2023;381:e070730. BMJ
- Bailey CS, Rasoulinejad P, Taylor D, et al. Surgery versus Conservative Care for Persistent Sciatica Lasting 4 to 12 Months. N Engl J Med. 2020;382(12):1093-1102. N Engl J Med
- Bailey CS, Glennie A, Rasoulinejad P, et al. Discectomy Compared with Standardized Nonoperative Care for Chronic Sciatica Due to a Lumbar Disc Herniation: A Secondary Analysis of a Randomized Controlled Trial with 2-Year Follow-up. J Bone Joint Surg Am. 2021;103(23):2161-2169. J Bone Joint Surg Am
Osteoartrite de joelho
Nas diretrizes recentes, educação e exercício estruturado estão entre os tratamentos centrais: a OARSI 2019 os lista como tratamentos centrais no joelho (educação e exercício terrestre estruturado, com ou sem manejo de peso), e a ACR/Arthritis Foundation 2019 faz recomendação forte para exercício e para perda de peso em quem tem sobrepeso ou obesidade. As controvérsias práticas são o ganho real da infiltração intra-articular de corticoide — recomendada de forma forte pela ACR/AF e classificada como nível 1B/2 pela OARSI — e o papel da artroscopia na doença degenerativa.
| População | Adultos com osteoartrite sintomática de joelho. |
|---|---|
| Intervenção | Exercício terapêutico + educação; fisioterapia. |
| Comparador | Infiltração de glicocorticoide; injeção de salina (placebo); adjuvantes intra-articulares. |
| Desfechos | Dor e função (WOMAC/KOOS), capacidade de marcha. |
Fisioterapia superou a infiltração de corticoide em 1 ano num ECR Evidência baixa
ECR (NEJM; n = 156, idade média de 56 anos, 78 por grupo; atenção primária do sistema de saúde militar dos EUA): quem fez fisioterapia teve menos dor e incapacidade em 1 ano do que quem recebeu glicocorticoide intra-articular — WOMAC (0–240; quanto menor, melhor) 37,0 vs 55,8; diferença de 18,8 pontos (IC95% 5,0 a 32,6) a favor da fisioterapia; os desfechos secundários seguiram a mesma direção. Ensaio único, com intervalo de confiança amplo; a diretriz ACR/AF mantém, ainda assim, recomendação forte para a infiltração no joelho.
Exercício + educação ≈ placebo aberto injetável no curto prazo Evidência baixa
ECR aberto de equivalência (Ann Rheum Dis; n = 206, ≥ 50 anos): um programa de 8 semanas de exercício + educação foi equivalente a quatro injeções de salina (placebo aberto) na dor (KOOS) à semana 9 (diferença 2,7; IC95% −0,6 a 6,0; margem de equivalência ±8), com eventos adversos semelhantes. Como o comparador é um placebo aberto, o resultado não permite separar efeito específico de efeito contextual, e o ensaio não avalia desfechos de longo prazo.
Injeção + fisioterapia vs. monoterapias Evidência baixa
Metanálise em rede (80 ECRs; n = 6.934): os autores concluem que a combinação de injeção intra-articular com fisioterapia traz mais benefício que cada monoterapia, com eficácia moderada pela gravidade da osteoartrite. Os agentes injetados são muito heterogêneos (corticoide, ácido hialurônico, dextrose, células-tronco, ozônio, entre outros) e as estimativas divulgadas são de magnitude muito alta (p. ex., SMD −2,54 para dor com dextrose + fisioterapia), o que pede cautela; o resumo não informa a certeza da evidência.
Artroscopia (desbridamento/meniscectomia) na doença degenerativa Evidência alta
Revisão Cochrane (16 ensaios; n = 2.105; 4 ensaios, n = 380, comparando com cirurgia placebo): evidência de certeza alta de que a artroscopia leva a pouca ou nenhuma diferença na dor e na função aos 3 meses (dor: diferença de 4,6 pontos em 0–100, IC95% 0,02 a 9; função: 0,1 ponto, −3,2 a 3,4); certeza moderada de pouca ou nenhuma melhora na qualidade de vida e certeza baixa para sucesso do tratamento relatado (RR 1,11; 0,66 a 1,86) e para eventos adversos. Os autores lembram que as diretrizes já recomendam fortemente contra o procedimento.
Educação e exercício terapêutico (± manejo de peso) são tratamentos centrais nas diretrizes (OARSI 2019; ACR/AF 2019). Em 1 ano, um ECR mostrou fisioterapia superior à infiltração de corticoide, mas as diretrizes divergem sobre a infiltração (recomendação forte na ACR/AF; nível 1B/2 na OARSI), que pode ser usada de forma pontual em casos selecionados. A combinação de injeção com fisioterapia tem evidência de baixa certeza. Artroscopia com desbridamento/meniscectomia não trouxe benefício clinicamente importante em dor e função frente à cirurgia placebo na revisão Cochrane.
Versão em linguagem simples: Dor no joelho → · Exercícios de fortalecimento →
Referências
- Bannuru RR, Osani MC, Vaysbrot EE, et al. OARSI guidelines for the non-surgical management of knee, hip, and polyarticular osteoarthritis. Osteoarthritis Cartilage. 2019;27(11):1578-1589. Osteoarthritis Cartilage
- Kolasinski SL, Neogi T, Hochberg MC, et al. 2019 American College of Rheumatology/Arthritis Foundation Guideline for the Management of Osteoarthritis of the Hand, Hip, and Knee. Arthritis Care Res (Hoboken). 2020;72(2):149-162. Arthritis Care Res
- Deyle GD, Allen CS, Allison SC, et al. Physical Therapy versus Glucocorticoid Injection for Osteoarthritis of the Knee. N Engl J Med. 2020;382(15):1420-1429. N Engl J Med
- Bandak E, Christensen R, Overgaard A, et al. Exercise and education versus saline injections for knee osteoarthritis: a randomised controlled equivalence trial. Ann Rheum Dis. 2022;81(4):537-543. Ann Rheum Dis
- Liao CD, Chen HC, Huang MH, et al. Comparative Efficacy of Intra-Articular Injection, Physical Therapy, and Combined Treatments on Pain, Function, and Sarcopenia Indices in Knee Osteoarthritis: A Network Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. Int J Mol Sci. 2023;24(7):6078. Int J Mol Sci
- O'Connor D, Johnston RV, Brignardello-Petersen R, et al. Arthroscopic surgery for degenerative knee disease (osteoarthritis including degenerative meniscal tears). Cochrane Database Syst Rev. 2022;3(3):CD014328. Cochrane
Estenose de canal lombar
Estenose lombar degenerativa com claudicação neurogênica. Duas decisões práticas: conservador × cirúrgico, e — quando se opera — descompressão isolada × descompressão associada a artrodese.
| População | Adultos com estenose lombar sintomática (claudicação neurogênica), com ou sem espondilolistese degenerativa. |
|---|---|
| Intervenção | Cirurgia (laminectomia descompressiva ± fusão). |
| Comparador | Tratamento conservador; ou descompressão isolada vs descompressão + fusão. |
| Desfechos | Dor, função (ODI/SF-36), qualidade de vida, reoperação. |
Cirurgia × conservador: vantagem inicial nas análises as-treated, que diminui; certeza baixa Evidência baixa
SPORT em estenose lombar (ensaio randomizado com coorte observacional concomitante; 13 centros): na análise por intenção de tratar não houve diferenças entre os grupos randomizados, em meio a alto cruzamento — em 8 anos, 70% dos randomizados para cirurgia e 52% dos randomizados para tratamento não cirúrgico haviam sido operados, e os dados foram obtidos de 55% dos randomizados. Na análise as-treated do grupo randomizado, o benefício precoce da cirurgia até 4 anos convergiu com o tempo, sem efeito significativo nos anos 6 a 8; na coorte observacional, a vantagem da cirurgia permaneceu estável entre 5 e 8 anos (Lurie). Na espondilolistese degenerativa (SPORT), a análise as-treated favoreceu a cirurgia até 8 anos, com a análise por intenção de tratar limitada pela não adesão (Abdu). A revisão Cochrane (5 ECRs; n = 643) conclui ter muito pouca confiança sobre qual abordagem é melhor, e registra eventos adversos da cirurgia em 10% a 24% dos casos, sem eventos relatados nos tratamentos conservadores.
Ao operar, descompressão isolada é preferível a acrescentar fusão Evidência moderada
Swedish Spinal Stenosis Study (ECR multicêntrico; n = 247 com estenose central de 1 ou 2 níveis, estratificados por espondilolistese; seguimento de 5 anos em 213 [95%]): adicionar fusão à descompressão não melhorou o ODI, com ou sem espondilolistese (25 com descompressão isolada vs 28 com fusão; p = 0,226). Três desfechos secundários que não diferiam aos 2 anos favoreceram a descompressão isolada aos 5 anos, entre eles o EQ-5D (0,69 vs 0,59; p = 0,027); no subgrupo sem espondilolistese, menos pacientes referiram redução da dor na perna após fusão (58% vs 80%; RR 0,71; IC95% 0,53 a 0,97). Cirurgia posterior em 24% com fusão e 22% com descompressão isolada (RR 1,1; 0,69 a 1,8).
Uma tentativa conservadora inicial é razoável: as evidências sobre o benefício cirúrgico são de baixa certeza (Cochrane) e, nas análises as-treated do SPORT, a vantagem da cirurgia diminui após cerca de 4 anos. Quando a cirurgia é escolhida, o ensaio sueco apoia a descompressão isolada como método preferido: acrescentar artrodese não melhorou o ODI em 5 anos, com ou sem espondilolistese, e não reduziu reoperação. A indicação de fusão deve ser individualizada, e este ensaio não permite definir quais pacientes se beneficiariam dela.
Versão em linguagem simples: Estenose de canal lombar →
Referências
- Lurie JD, Tosteson TD, Tosteson A, et al. (SPORT). Long-term outcomes of lumbar spinal stenosis: eight-year results of the Spine Patient Outcomes Research Trial (SPORT). Spine (Phila Pa 1976). 2015;40(2):63-76. Spine
- Zaina F, Tomkins-Lane C, Carragee E, et al. Surgical versus non-surgical treatment for lumbar spinal stenosis. Cochrane Database Syst Rev. 2016;2016(1):CD010264. Cochrane
- Abdu WA, Sacks OA, Tosteson ANA, et al. (SPORT). Long-Term Results of Surgery Compared With Nonoperative Treatment for Lumbar Degenerative Spondylolisthesis in the Spine Patient Outcomes Research Trial (SPORT). Spine (Phila Pa 1976). 2018;43(23):1619-1630. Spine
- Karlsson T, Försth P, Öhagen P, et al. (Swedish Spinal Stenosis Study). Decompression alone or decompression with fusion for lumbar spinal stenosis: five-year clinical results from a randomized clinical trial. Bone Joint J. 2024;106-B(7):705-712. Bone Joint J
Epicondilalgia lateral (cotovelo do tenista)
Tendinopatia do extensor comum, que acomete cerca de 1% a 3% da população; os sintomas podem desaparecer espontaneamente em até 1 ano (Kim et al.). As fontes revisadas comparam exercício, fisioterapia e injeções.
| População | Adultos com epicondilalgia lateral (tendinopatia do extensor comum). |
|---|---|
| Intervenção | Exercício de carga / fisioterapia; injeções. |
| Comparador | "Wait-and-see"; infiltração de corticoide; ESWT; placebo. |
| Desfechos | Dor, força de preensão sem dor, função (DASH/PRTEE), eventos adversos. |
Exercício supera o corticoide em desfechos de médio e longo prazo (efeito pequeno) Evidência baixa
Metanálise de 30 ECRs (BJSM; n = 2.123): o exercício superou o corticoide em todos os desfechos e tempos, exceto na redução de dor a curto prazo (certeza baixa). Na força de preensão sem dor, a diferença foi MD 12,15 (IC95% 1,69 a 22,6) no curto prazo, 22,45 (3,63 a 41,3) no médio e 18 (11,17 a 24,84) no longo prazo. Em comparação com wait-and-see (certeza muito baixa), houve diferença apenas em melhora percebida, dor e incapacidade em alguns tempos. Os autores concluem que o efeito é pequeno e apontam grande heterogeneidade na descrição de carga, duração e frequência dos programas de exercício.
Injeções: sem benefício na metanálise e pior desfecho de 1 ano com corticoide em um ECR Evidência moderada
Metanálise de 58 ECRs (Kim): em relação ao placebo, a eletrofisioterapia e a fisioterapia melhoraram dor e função (dor, eletrofisioterapia: MD −10,0; IC95% −13,8 a −6,1; fisioterapia: MD −6,0; −9,7 a −2,3), enquanto as injeções não melhoraram nenhum desfecho; eletrofisioterapia e injeções tiveram mais eventos adversos que a fisioterapia. No ECR de Coombes (JAMA; n = 165, sintomas > 6 semanas, injetor cegado, controlado por placebo), o corticoide teve pior resultado em 1 ano que o placebo — recuperação completa ou grande melhora em 83% vs 96% (RR 0,86; IC99% 0,75 a 0,99) e recidiva em 54% vs 12% (RR 0,23; 0,10 a 0,51) — e a fisioterapia não alterou o desfecho de 1 ano. A metanálise de Kim não relata avaliação formal de certeza.
A base do tratamento nas revisões é o exercício de carga, com efeito pequeno e certeza baixa. Quanto ao corticoide, o exercício foi superior em desfechos de médio e longo prazo (Karanasios), a metanálise de Kim não encontrou benefício das injeções, e um ECR placebo-controlado mostrou pior resultado em 1 ano (Coombes): evitar a infiltração de corticoide como rotina.
Versão em linguagem simples: Dor no cotovelo →
Referências
- Karanasios S, Korakakis V, Whiteley R, et al. Exercise interventions in lateral elbow tendinopathy have better outcomes than passive interventions, but the effects are small: a systematic review and meta-analysis of 2123 subjects in 30 trials. Br J Sports Med. 2021;55(9):477-485. Br J Sports Med
- Kim YJ, Wood SM, Yoon AP, et al. Efficacy of Nonoperative Treatments for Lateral Epicondylitis: A Systematic Review and Meta-Analysis. Plast Reconstr Surg. 2021;147(1):112-125. Plast Reconstr Surg
- Coombes BK, Bisset L, Brooks P, et al. Effect of corticosteroid injection, physiotherapy, or both on clinical outcomes in patients with unilateral lateral epicondylalgia: a randomized controlled trial. JAMA. 2013;309(5):461-469. JAMA
Limitações transversais: heterogeneidade estatística relevante em várias metanálises, RCTs de pequeno porte e qualidade metodológica variável das intervenções. Vários desfechos cirúrgicos têm análise limitada por crossover e não-aderência. Os tamanhos de efeito devem orientar, não determinar, a conduta. Conteúdo autoral da Escola de Coluna a partir das fontes primárias citadas; sem vínculo com os autores ou periódicos.