Ilustração 3D anatômica da ciática: nervo ciático em amarelo-dourado descendo pela coluna lombar L4-L5, nádega e face posterior da coxa, com compressão da raiz nervosa em vermelho
Trajeto do nervo ciático (amarelo) desde a compressão em L4-L5 até o membro inferior — origem da dor irradiada

O que é

Ciática (ou lombociatalgia, também chamada de dor radicular lombossacra) é a dor que irradia da região lombar ou do glúteo para a perna, seguindo o trajeto de um nervo. Pode ser causada pela pressão de uma hérnia de disco sobre a raiz do nervo. Não é uma doença em si, mas um padrão de dor com uma causa por trás.

Quão comum é

Ninguém sabe dizer com precisão. Uma revisão de 23 estudos de prevalência (Konstantinou e Dunn, Spine, 2008) encontrou valores entre 1,2% e 43%, porque cada estudo definia ciática de um jeito e só 2 dos 23 usaram exame clínico para confirmar os sintomas. A mesma revisão lembra que a ciática costuma ser mais persistente e mais intensa que a dor lombar isolada, com evolução menos favorável e maior uso de serviços de saúde.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é principalmente clínico: história da dor, elevação da perna esticada (manobra de Lasègue), força muscular, sensibilidade e reflexos. Nenhum desses testes é perfeito. Uma revisão Cochrane (van der Windt et al., 2010) mostrou que, em pacientes de serviços cirúrgicos, a elevação da perna esticada tem alta sensibilidade (0,92) mas baixa especificidade (0,28): ela raramente deixa passar uma hérnia, mas também fica positiva em quem não a tem. A elevação cruzada (levantar a perna do lado sem dor e provocar a dor do outro lado) faz o oposto: especificidade de 0,90 e sensibilidade de apenas 0,28. Isoladamente, a maioria dos testes do exame físico teve desempenho ruim, e a combinação de testes funciona melhor. A revisão ressalva que quase todos os estudos vieram de pacientes de cirurgia, e os resultados podem não valer para quem é atendido na atenção primária.

Quanto ao exame de imagem, o NICE recomenda não solicitar imagem de rotina em atendimento não especializado para dor lombar com ou sem ciática; em serviço especializado, considerar a imagem apenas se o resultado for capaz de mudar a conduta.

Cirurgia alivia a dor mais rápido — e a vantagem a longo prazo é menos clara

Os ensaios clínicos que compararam cirurgia (discectomia) e tratamento conservador na ciática por hérnia de disco não dão uma resposta única:

  • Ensaio de Leiden-Haia (Peul et al., NEJM, 2007): 283 pacientes com ciática intensa entre 6 e 12 semanas foram sorteados para cirurgia precoce ou tratamento conservador prolongado, com cirurgia se necessário. A dor na perna e a sensação de recuperação melhoraram mais rápido com a cirurgia precoce (hazard ratio para recuperação percebida: 1,97), mas não houve diferença significativa na incapacidade no primeiro ano, e a recuperação percebida após 1 ano foi de 95% nos dois grupos. No grupo conservador, 39% acabaram operados.
  • Mesmo ensaio, 5 anos (Lequin et al., BMJ Open, 2013): sem diferenças significativas nos desfechos principais entre os grupos; 46% dos sorteados para o tratamento conservador foram operados por dor intensa e incapacidade. No conjunto, 21% dos pacientes tinham recuperação insatisfatória aos 5 anos.
  • Ciática persistente de 4 a 12 meses (Bailey et al., NEJM, 2020): 128 pacientes num único centro. A dor na perna aos 6 meses (escala de 0 a 10) foi de 2,8 com microdiscectomia e 5,2 com tratamento não cirúrgico (diferença ajustada de 2,4; IC 95%: 1,4 a 3,4). No grupo não cirúrgico, 34% migraram para a cirurgia.
  • SPORT, 8 anos (Lurie et al., Spine, 2014): 501 pacientes sorteados. Como 49% do grupo não cirúrgico fez cirurgia e 60% do grupo cirúrgico a fez, as diferenças na análise por intenção de tratar foram pequenas e não significativas nos desfechos principais (dor corporal, função física e incapacidade), embora a cirurgia tenha ficado à frente em desfechos secundários como o incômodo da ciática, a satisfação com os sintomas e a melhora autorreferida. Na análise pelo tratamento efetivamente recebido, a cirurgia teve vantagem nos desfechos principais; essa análise é menos robusta, porque os grupos deixam de ser comparáveis.

Resumo honesto: a cirurgia costuma acelerar o alívio. Se ela muda o resultado final depende do estudo e de quanto tempo a ciática já durava — e uma revisão sistemática (Jacobs et al., 2011) já apontava que faltam estudos para saber quem se beneficia mais da cirurgia e quem do tratamento conservador. Por isso a decisão é individual e compartilhada.

Fontes: Peul WC, et al. N Engl J Med. 2007;356(22):2245-2256 · Lequin MB, et al. BMJ Open. 2013;3(5):e002534 · Bailey CS, et al. N Engl J Med. 2020;382(12):1093-1102 · Lurie JD, et al. Spine. 2014;39(1):3-16 · Jacobs WC, et al. Eur Spine J. 2011;20(4):513-522.

Tratamento

O NICE (diretriz NG59, atualizada em 2026) recomenda oferecer orientação e informação sobre a natureza da dor e incentivar a continuar as atividades normais; considerar um programa de exercício em grupo; e considerar terapia manual apenas como parte de um pacote que inclua exercício. Para a ciática, a diretriz recomenda não oferecer gabapentinoides, outros antiepilépticos, corticoide oral nem benzodiazepínicos (sem benefício geral demonstrado e com evidência de dano), nem opioides para ciática crônica. Também alerta que, para os anti-inflamatórios na ciática, a evidência de benefício é limitada e há risco de efeitos adversos; se forem usados, na menor dose e pelo menor tempo possível.

Para a dor intensa e recente, o NICE sugere considerar a infiltração epidural de anestésico local com corticoide em ciática aguda e grave. O quanto isso ajuda é modesto: uma revisão Cochrane de 25 ensaios (2.470 participantes) concluiu que o corticoide epidural provavelmente reduz um pouco a dor na perna (−4,93 pontos numa escala de 0 a 100) e a incapacidade (−4,18) a curto prazo, em comparação com placebo, mas o efeito é pequeno e pode não ser considerado importante por pacientes e médicos (diferença menor que 10 pontos); a qualidade da evidência variou de muito baixa a moderada.

A cirurgia (descompressão) entra, segundo o NICE, quando o tratamento não cirúrgico não melhorou a dor ou a função e os achados de imagem são compatíveis com os sintomas, ou quando há sinais de alerta como os descritos abaixo.

⚠️ Sinais de alerta: síndrome da cauda equina

A síndrome da cauda equina é rara — cerca de 0,3% das pessoas com dor lombar —, mas é uma emergência cirúrgica. Um artigo de 2025 no British Journal of General Practice (Todd et al.), que resume as diretrizes nacionais do Reino Unido desde 2020, destaca uma mudança importante: os sintomas já bastam para pedir ressonância no mesmo dia, mesmo que o exame físico esteja normal. Nem a ausência de incontinência nem uma sensibilidade normal ao exame excluem o diagnóstico.

Procure avaliação urgente se a ciática ou a dor lombar vier acompanhada de qualquer um destes sintomas novos:
  • Mudança no jeito de urinar: dificuldade para começar, jato fraco ou em gotejamento, sensação de esvaziar de forma incompleta, perda da sensação de passagem da urina, retenção ou perda de controle
  • Mudança na sensibilidade da região genital ou ao redor do ânus (formigamento ou dormência, "em sela")
  • Alteração do funcionamento do intestino ou perda de controle das fezes
  • Fraqueza que piora nas pernas, ou dor ciática que passa a atingir as duas pernas
Retenção de urina e incontinência são sintomas tardios: não espere por eles. Segundo o mesmo artigo, entre os pacientes com suspeita clínica que fazem a ressonância de urgência, cerca de 19% têm a compressão confirmada — ou seja, na maioria das vezes o resultado é tranquilizador, mas a investigação no mesmo dia é a regra porque o atraso pode causar lesão neurológica evitável. Se confirmada, a cirurgia de emergência costuma evitar a piora neurológica.

Em caso de emergência, ligue SAMU 192. Fora de uma emergência, fale com a ou agende uma avaliação.

Dor irradiando para a perna?

A avaliação identifica a causa e orienta o plano de tratamento, que costuma começar de forma conservadora.

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Referências científicas

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. A ciática tem várias causas possíveis, e nenhum teste isolado a confirma — o exame clínico é essencial para entender a origem da dor e definir o tratamento.