Ilustração 3D anatômica da fascite plantar: vista lateral do pé mostrando calcâneo, fáscia plantar e zona de inflamação em vermelho-alaranjado na inserção calcânea, com nervo plantar medial, tendão de Aquiles e ossos do tarso
Vista lateral do pé — fáscia plantar e a zona dolorosa na inserção no calcâneo (vermelho), origem mais comum da dor no calcanhar ao pisar pela manhã

O que é

É uma dor na sola do pé, perto do calcanhar, ligada à fáscia plantar — o tecido que vai do calcanhar aos dedos. Apesar do nome "fascite" (que sugere inflamação), a análise de tecido de 50 casos operados por fascite plantar crônica mostrou degeneração do tecido (alteração chamada mixoide, com fragmentação) e não sinais de inflamação, o que levou os autores a descrever o quadro como um processo degenerativo, e não inflamatório. Por isso a literatura atual prefere o termo fasciopatia plantar — é o que se lê, por exemplo, no ensaio randomizado citado mais adiante nesta página. Vale a ressalva: esse achado vem de casos operados, ou seja, de casos graves, e não se estende automaticamente a todos os pacientes.

Entre os fatores associados à doença estão o excesso de peso e ficar muito tempo em pé no trabalho. Numa revisão sistemática de 51 estudos (quase todos caso-controle), o índice de massa corporal elevado foi a única associação clínica significativa entre as variáveis que puderam ser reunidas (IMC acima de 27: razão de chances de 3,7). Um estudo caso-controle menor, com 50 pacientes, também encontrou associação com ficar a maior parte do dia de trabalho em pé e com a dorsiflexão do tornozelo limitada (veja restrição de dorsiflexão), mas esse último achado não foi confirmado como associação na meta-análise. São associações — não provam que uma coisa cause a outra.

E o esporão de calcâneo? O esporão (uma pequena calcificação óssea vista no raio-X) é encontrado com mais frequência em quem tem dor no calcanhar do que em quem não tem, segundo essa mesma revisão. Mas isso não prova que ele seja a causa da dor: em dois estudos, a presença do esporão não mudou a evolução dos pacientes (nem a resposta ao tratamento no ensaio, nem o prognóstico a longo prazo na coorte).

Fontes: Lemont H, et al. J Am Podiatr Med Assoc. 2003;93(3):234-237 · Riddle DL, et al. J Bone Joint Surg Am. 2003;85(5):872-877 · van Leeuwen KD, et al. Br J Sports Med. 2016;50(16):972-981 · Probe RA, et al. Clin Orthop Relat Res. 1999;(368):190-195 · Hansen L, et al. Orthop J Sports Med. 2018;6(3):2325967118757983.

Quão comum é e quanto tempo dura

Num levantamento com 5.109 adultos de 50 anos ou mais, atendidos em clínicas de atenção primária no Reino Unido, 9,6% relataram dor no calcanhar no último mês (7,9% com dor que atrapalhava as atividades). A dor foi um pouco mais comum em mulheres e em quem tinha ocupação manual, e se associou a sobrepeso, menos atividade física e mais ansiedade e depressão. O levantamento mede dor no calcanhar em geral (nem toda é fascite) e só em maiores de 50 anos.

Sobre o tempo de recuperação, o dado mais completo que encontrei é menos otimista do que costuma ser dito. Num estudo dinamarquês com 174 pacientes acompanhados por cerca de 10 anos desde o início dos sintomas, 54% estavam sem sintomas e 46% ainda tinham dor; a estimativa de ainda ter fascite era de 80,5% após 1 ano, 50% após 5 anos e 45,6% após 10 anos. O prognóstico foi pior em mulheres e em quem tinha dor nos dois pés. Houve limitações: um único serviço, apenas parte dos pacientes convidados participou e o estudo é observacional, sem poder comparar tratamentos. Já em ensaio com 116 pacientes, 68% relataram melhora em 12 semanas com tratamento conservador, e quem tinha mais de 45 anos melhorou menos.

Fontes: Thomas MJ, et al. BMC Musculoskelet Disord. 2019;20(1):337 · Hansen L, et al. Orthop J Sports Med. 2018;6(3):2325967118757983 · Probe RA, et al. Clin Orthop Relat Res. 1999;(368):190-195.
O que a evidência mostra sobre os tratamentos

Alongamento da fáscia plantar. Num ensaio randomizado com 101 pacientes que tinham fascite crônica havia pelo menos 10 meses, um programa de alongamento específico da fáscia plantar (sem apoiar o peso) foi melhor do que o alongamento do tendão de Aquiles para a pior dor e para a dor nos primeiros passos da manhã, após 8 semanas. No seguimento de 2 anos (66 pacientes com dados completos), todos tinham melhorado e a diferença entre os grupos não era mais significativa; 92% estavam satisfeitos. Uma meta-análise de 236 estudos (15.401 pacientes) encontrou que o alongamento reduz a dor de forma pequena a curto prazo.

Ondas de choque e outras terapias. Na mesma meta-análise, várias terapias aliviaram a dor a curto prazo em comparação com controle (como fita adesiva tipo low-dye, laser de baixa intensidade, agulhamento seco e liberação miofascial). A médio e longo prazo, apenas as ondas de choque extracorpóreas foram efetivas para a dor.

Palmilhas e órteses. Uma revisão de 20 ensaios concluiu que as órteses plantares não foram superiores a órteses simuladas (placebo) nem a outros tratamentos conservadores para dor e função; as personalizadas (sob medida) não foram diferentes das prontas.

Tala noturna. Num ensaio com 116 pacientes, acrescentar a tala noturna por 3 meses ao tratamento conservador não trouxe diferença estatística.

Anti-inflamatório oral. Um ensaio pequeno (29 pacientes) com celecoxibe não mostrou diferença estatística entre o grupo com o remédio e o grupo placebo em 1, 2 e 6 meses, embora tenha havido uma tendência de melhora; a evidência é limitada.

Limitações: boa parte dos estudos é pequena, os desfechos e o tempo de seguimento variam, e as terapias foram comparadas com controles diferentes. Os resultados mostram o que funciona em média, não o que vai funcionar no seu caso.

Fontes: DiGiovanni BF, et al. J Bone Joint Surg Am. 2003;85(7):1270-1277 e 2006;88(8):1775-1781 · Guimarães JS, et al. Clin Rehabil. 2023;37(6):727-746 · Rasenberg N, et al. Br J Sports Med. 2018;52(16):1040-1046 · Probe RA, et al. Clin Orthop Relat Res. 1999;(368):190-195 · Donley BG, et al. Foot Ankle Int. 2007;28(1):20-23.

A infiltração de corticoide é o tratamento que mais divide os estudos — e vale entender onde está a divergência, porque ela não é sobre o remédio funcionar ou não. Quase todos os trabalhos encontram algum alívio. A discussão é sobre o tamanho desse alívio, quanto ele dura e como se compara com as alternativas.

O que os estudos concordam: o alívio existe, é pequeno e é curto

A revisão Cochrane reuniu 39 estudos com 2.492 adultos, a maioria com alto risco de viés e evidência de qualidade muito baixa. Em 8 estudos (724 pacientes) que compararam a infiltração com placebo ou nenhum tratamento, a infiltração pode reduzir um pouco a dor no primeiro mês (evidência de baixa qualidade), mas não fez diferença na dor entre 1 e 6 meses. Eventos graves foram raros, mas pouco registrados: na análise exploratória de 21 estudos (699 participantes que receberam a infiltração), houve 2 rupturas da fáscia plantar e 3 infecções no local, e os autores não descartam risco maior. Num estudo observacional dinamarquês, as infiltrações guiadas por ultrassom não se associaram a afinamento do coxim de gordura do calcanhar.

Fontes: David JA, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2017;6(6):CD009348 · Hansen L, et al. Orthop J Sports Med. 2018;6(3):2325967118757983.
Onde a divergência aparece: significativo no papel, imperceptível na vida

Um ensaio randomizado dinamarquês acompanhou 180 adultos com o diagnóstico confirmado por ultrassom, divididos em três grupos: orientação mais palmilha de calcanhar; o mesmo mais exercício de força progressiva; e o mesmo mais uma infiltração guiada por ultrassom.

Aos 3 meses, o grupo com infiltração teve resultado melhor que o grupo de orientação isolada, e a diferença foi estatisticamente significativa — 9,1 pontos numa escala de dor de 0 a 100. O detalhe que muda a leitura: os próprios autores definiram de antemão que só uma diferença de 14,1 pontos seria perceptível para o paciente. Em nenhum momento do seguimento, até 52 semanas, a diferença alcançou esse limiar.

E duas comparações não mostraram diferença nenhuma: infiltração mais exercício versus exercício sozinho, e exercício sozinho versus só orientação com palmilha. A conclusão dos autores é que somar a infiltração ao exercício não é superior.

Fonte: Riel H, Vicenzino B, Olesen JL, Bach Jensen M, Ehlers LH, Rathleff MS. Br J Sports Med. 2023;57(18):1180-1186.
E quando se compara com ondas de choque

Uma revisão sistemática com metanálise de 16 ensaios randomizados e 1.121 pacientes comparou as duas opções diretamente. As ondas de choque saíram melhor que a infiltração na dor aos 3 meses (diferença padronizada −0,6; IC 95% −1,1 a −0,11) e aos 6 meses (−0,81; IC −1,6 a −0,06), além de melhor função do pé nos dois momentos.

Os intervalos de confiança são largos e chegam perto do zero, o que indica resultado pouco preciso — mas a direção se repete nos dois horizontes. Vale registrar o que esses números são: diferença padronizada não se traduz direto em "quantos pontos de dor a menos", e a qualidade metodológica dos estudos incluídos foi apenas mediana (média de 6 na escala PEDro).

Fonte: Cortés-Pérez I, et al. Clin Rehabil. 2024;38(8):1023-1043.

O que sobra disso na prática. A infiltração tem lugar: pode ajudar a atravessar uma fase muito dolorosa, principalmente quando a dor impede começar o exercício. O que a evidência não sustenta é tratá-la como atalho — o alívio tende a ser modesto, some em semanas, e no horizonte de meses as alternativas se igualam ou passam na frente. A decisão de infiltrar é individual e discutida na consulta, levando em conta há quanto tempo dói, o que já foi tentado e o incômodo do dia a dia.

Calçado: o que se sabe e o que não se sabe

Não encontrei estudos de boa qualidade que mostrem que um tipo de calçado (salto, sapatilha, chinelo, solado muito usado) cause ou previna a fascite plantar. A ideia de que o salto alto aumenta o risco, em especial, não se confirmou no levantamento populacional que li: a dor no calcanhar esteve associada a menor uso prévio de salto alto (estudo transversal, que não permite afirmar causa). A revisão sobre fatores de risco também não encontrou apoio para as medidas mecânicas do pé e do tornozelo mais citadas. Por isso, a escolha de calçado e palmilha deve ser guiada pelo conforto e pela orientação do profissional que avalia o seu caso, e não por uma regra rígida. Sobre palmilhas, veja o quadro de tratamentos acima.

Fontes: Thomas MJ, et al. BMC Musculoskelet Disord. 2019;20(1):337 · van Leeuwen KD, et al. Br J Sports Med. 2016;50(16):972-981 · Rasenberg N, et al. Br J Sports Med. 2018;52(16):1040-1046.
Dor persistente: o papel dos fatores emocionais

Em 36 pessoas com dor plantar no calcanhar, a catastrofização da dor (pensar que a dor é insuportável ou que nunca vai melhorar) explicou 39% da variação na função do pé e 18% da variação na dor dos primeiros passos; o medo de se movimentar (cinesiofobia) explicou 21% da variação na função. Uma revisão sistemática de 18 estudos confirmou que fatores psicológicos negativos são mais frequentes em quem tem dor no pé e no tornozelo, mas os estudos são transversais (mediram tudo num único momento), o que reduz a certeza: não dá para saber se esses pensamentos pioram a dor ou se a dor persistente causa esses pensamentos.

Os autores sugerem que o tratamento considere também esses fatores, além do alongamento e das palmilhas. Não encontrei ensaio mostrando que um programa de educação em dor melhore o resultado da fascite plantar; por isso essa recomendação é uma hipótese razoável, e não um tratamento comprovado.

Fontes: Cotchett M, et al. Foot (Edinb). 2017;32:8-14 · Cotchett M, et al. J Foot Ankle Res. 2022;15(1):10.

Resumo do tratamento, do mais simples ao mais avançado

⚠️ Quando não é "só" fascite

Procure avaliação (e possivelmente um exame de imagem) se a dor no calcanhar tiver algo diferente do padrão típico:
  • Dor nos dois pés ao mesmo tempo, ou sem relação nenhuma com apoiar o pé — pode ter outra causa reumatológica
  • Dor noturna que não melhora com repouso — investigar outras causas
  • Dor de início súbito, tipo "estalo", com inchaço e machucado imediato — pode ser uma ruptura aguda da fáscia
  • Formigamento irradiando pela planta do pé — pode ser compressão de um nervo, não a fáscia
  • Febre, vermelhidão ou calor local — descartar infecção
  • Dor muito localizada após impacto, em atleta ou pessoa com risco de osteoporose — pode ser uma fratura de estresse do calcâneo

Fora dessas situações, fale com a ou agende uma avaliação com nossa fisioterapia.

Dor no calcanhar ao dar os primeiros passos do dia?

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Fascite plantar

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Referências científicas

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