O que é
Osteoporose é a perda de densidade e qualidade óssea que torna o osso mais frágil e propenso a fraturas, mesmo com traumas de baixa energia (queda da própria altura, por exemplo). Em sociedades ocidentais, estima-se que 1 em cada 3 mulheres e 1 em cada 5 homens terão uma fratura osteoporótica ao longo da vida a partir dos 50 anos (Lorentzon et al., 2022). É uma estimativa de risco ao longo da vida, não de quantos têm a doença hoje, e vem de dados internacionais, não do Brasil. As fraturas mais comuns são de vértebras, quadril e punho (LeBoff et al., 2022).
A densitometria óssea (DEXA) classifica a densidade pelo T-score (critério da Organização Mundial da Saúde): T-score ≤ -2,5 define osteoporose e entre -1,0 e -2,5 define osteopenia (baixa massa óssea). O T-score é só uma parte da avaliação: nas diretrizes, a fratura prévia de quadril ou de vértebra também indica osteoporose e tratamento, independentemente do resultado da densitometria (LeBoff et al., 2022).
Quando investigar
- Mulheres ≥65 anos e homens ≥70 anos — a Bone Health and Osteoporosis Foundation (BHOF) recomenda densitometria nessas idades (LeBoff et al., 2022). Para mulheres ≥65 anos, a força-tarefa americana (USPSTF, 2025) também recomenda; para homens, concluiu que a evidência ainda é insuficiente para definir benefício e dano do rastreamento
- Mulheres na pós-menopausa mais jovens (ou na transição da menopausa) e homens de 50 a 69 anos com fatores de risco (por exemplo, fratura prévia, uso de corticoide, artrite reumatoide, outras condições que reduzem massa óssea)
- Qualquer fratura a partir dos 50 anos
Quedas: é onde a evidência é mais forte. Uma revisão Cochrane de 108 ensaios (23.407 pessoas com 60 anos ou mais, vivendo na comunidade; Sherrington et al., 2019) concluiu que o exercício reduz em 23% a taxa de quedas (razão de taxas 0,77; IC 95% 0,71–0,83; certeza alta), principalmente com exercícios de equilíbrio e funcionais. Programas que combinam vários tipos (equilíbrio e funcionais mais resistência) provavelmente reduzem em 34% (certeza moderada). O exercício também pode reduzir o número de pessoas com fratura relacionada a queda (RR 0,73; IC 95% 0,56–0,95), mas com certeza baixa. Esses participantes eram idosos em geral, não apenas pessoas com osteoporose.
Osso: uma revisão Cochrane de 43 ensaios (4.320 mulheres na pós-menopausa; Howe et al., 2011) encontrou efeito pequeno, mas estatisticamente significativo, sobre a densidade óssea: programas combinados de exercício na coluna (diferença média de 3,22 pontos percentuais) e treino de força dos membros inferiores no colo do fêmur (1,03). Não houve efeito demonstrado sobre o número de fraturas (OR 0,61; IC 95% 0,23–1,64: um intervalo largo, que não exclui benefício nem ausência dele), e a qualidade do relato dos estudos era baixa. No ensaio LIFTMOR (101 mulheres com osteopenia ou osteoporose, idade média de 65 anos), 8 meses de treino supervisionado de alta intensidade aumentaram a densidade da coluna lombar em 2,9% contra uma queda de 1,2% no grupo de exercício leve em casa, com um único evento adverso (espasmo lombar leve). O estudo foi pequeno, com supervisão rigorosa, em mulheres sem outras doenças relevantes, e não avaliou fraturas.
Segurança: o consenso Too Fit To Fracture (método GRADE) afirma que há evidência insuficiente para quantificar os riscos do exercício em quem tem osteoporose ou fratura vertebral, e por isso suas recomendações são condicionais; recomenda fortemente um programa com treino de resistência e de equilíbrio. Por isso o exercício deve ser prescrito e adaptado por profissional. Evitar se movimentar por medo de fraturar também traz dano previsível ao osso, aos músculos e à saúde geral (LeBoff et al., 2022).
Fontes: Sherrington C, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2019;(1):CD012424 · Howe TE, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2011;(7):CD000333 · Watson SL, et al. J Bone Miner Res. 2018;33(2):211–220 · Giangregorio LM, et al. Osteoporos Int. 2014;25(3):821–835 · LeBoff MS, et al. Osteoporos Int. 2022;33(10):2049–2102.Exercícios recomendados
As diretrizes recomendam um programa multicomponente, que combina três tipos de exercício (BHOF; Giangregorio et al.):
- Treinamento resistido — a BHOF sugere 2 a 3 dias por semana, com cargas progressivas para os grandes grupos musculares (pernas, quadril, costas)
- Exercício com sustentação do peso e impacto controlado — caminhada, subir escadas; a BHOF sugere cerca de 30 minutos na maioria dos dias. Impacto mais intenso (como saltos) só com avaliação e supervisão profissional, porque, feito de forma inadequada, pode causar lesão, sobretudo em quem já tem fratura vertebral
- Treino de equilíbrio — como tai chi e exercícios que desafiam o equilíbrio. Nos adultos de 65 anos ou mais, a maioria das fraturas está associada a uma queda (LeBoff et al., 2022), e o tai chi reduziu o número de pessoas que caem em 20% (Sherrington et al., 2019)
Movimentos a evitar ou modificar em quem tem baixa densidade óssea, osteoporose ou cifose: segundo a BHOF, atividades feitas com flexão do tronco sob carga devem ser evitadas, a menos que sejam adaptadas para proteger a coluna, e deve-se evitar flexão ou rotação extremas, principalmente com peso (como levantar objetos do chão com a coluna curvada). Torções lentas e controladas, com a coluna apoiada, são aceitáveis. A própria diretriz recomenda orientação individual de fisioterapeuta ou terapeuta ocupacional, em vez de proibições genéricas.
Dois exemplos de estudos de bisfosfonatos. No ensaio HORIZON-PFT (7.765 mulheres na pós-menopausa com osteoporose, idade média de 73 anos; Black et al., 2007), três infusões anuais de ácido zoledrônico reduziram a fratura vertebral morfométrica em 70% em 3 anos (3,3% contra 10,9% com placebo; RR 0,30; IC 95% 0,24–0,38) e a fratura de quadril em 41% (1,4% contra 2,5%). Houve mais fibrilação atrial grave no grupo do medicamento (50 casos contra 20). Na revisão Cochrane do alendronato (11 ensaios, 12.068 mulheres; Wells et al., 2008), a fratura vertebral caiu 45% (RR 0,55; IC 95% 0,45–0,67) e a de quadril, 40% (RR 0,60; IC 95% 0,40–0,92); a redução de fratura não vertebral (16%) e de quadril foi significativa na prevenção secundária (quem já fraturou), mas não na prevenção primária, exceto para vértebras.
São reduções relativas; em números absolutos, o benefício é maior em quem tem risco mais alto (no alendronato, a redução absoluta de fratura vertebral foi de 2% na prevenção primária e 6% na secundária). Efeitos raros, como osteonecrose de mandíbula e fratura atípica de fêmur, foram descritos com o tratamento, mas a relação benefício-risco é considerada claramente favorável para a maioria das mulheres com osteoporose (Black e Rosen, 2016). Os resultados se referem a mulheres na pós-menopausa; em homens e em outros medicamentos, os números diferem.
A decisão de tratar não depende só do T-score. As diretrizes indicam tratamento em quem tem fratura prévia de quadril ou de vértebra, T-score ≤ -2,5, ou risco de fratura em 10 anos acima do limite definido pela ferramenta FRAX (na BHOF, por exemplo, osteopenia com risco de fratura de quadril ≥ 3% ou de fratura osteoporótica maior ≥ 20%; os limites variam conforme o país e a diretriz; LeBoff et al., 2022; Compston et al., 2017).
Fontes: Black DM, et al. N Engl J Med. 2007;356(18):1809–1822 · Wells GA, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2008;(1):CD001155 · Black DM, Rosen CJ. N Engl J Med. 2016;374(3):254–262 · LeBoff MS, et al. Osteoporos Int. 2022;33(10):2049–2102.Nutrição
As diretrizes recomendam cálcio de 1.000 a 1.200 mg por dia (1.200 mg para mulheres a partir de 51 anos e homens a partir de 71 anos), preferencialmente pela alimentação, com suplemento apenas se a dieta não bastar (LeBoff et al., 2022; a diretriz europeia cita 800 a 1.200 mg, Kanis et al., 2019). Para a vitamina D, a BHOF sugere 800 a 1.000 UI por dia quando necessário para manter nível sanguíneo suficiente, e a diretriz europeia sugere 800 UI por dia para mulheres na pós-menopausa com risco aumentado de fratura. Limite da evidência: em um grande ensaio com 25.871 adultos saudáveis (VITAL; LeBoff et al., 2022), 2.000 UI por dia de vitamina D não reduziram fraturas em comparação com placebo (HR 0,98; IC 95% 0,89–1,08), em pessoas não selecionadas por deficiência, baixa massa óssea ou osteoporose. Dose e necessidade de suplemento devem ser definidas pelo médico. A diretriz europeia também recomenda ingestão suficiente de proteína para manter a função muscular e óssea — ver também sarcopenia, condição frequentemente associada.
- Fratura após trauma de baixa energia (queda da própria altura), principalmente a partir dos 50 anos
- Perda de altura (a BHOF considera ≥ 3,8 cm em relação à altura da juventude, ou ≥ 2 cm em acompanhamento) ou aumento da curvatura da coluna torácica: podem indicar fraturas vertebrais, que muitas vezes não dão sintomas
- Dor lombar ou torácica nova, de início agudo, sem trauma claro, em pessoa com fatores de risco (pode ser fratura vertebral por compressão)
- Quedas de repetição, independente de haver fratura
- Uso prolongado de corticoide sem avaliação de densidade óssea
Resumo
- Osteoporose é classificada pela densitometria (T-score ≤ -2,5), mas fratura prévia de quadril ou de vértebra também indica a doença; fraturas mais comuns: vértebras, quadril e punho
- Exercício com treino de resistência e de equilíbrio reduz quedas (evidência de certeza alta) e melhora pouco a densidade óssea; o efeito direto sobre fraturas não foi demonstrado
- Evitar se movimentar por medo traz dano previsível; o exercício deve ser adaptado e, nos casos de maior risco, supervisionado
- Em baixa densidade óssea, evitar flexão ou rotação extremas do tronco com carga
- Bisfosfonatos reduziram fraturas em ensaios (por exemplo, 70% de redução de fratura vertebral e 41% de quadril com ácido zoledrônico em 3 anos); o benefício é maior em quem tem risco alto, e a indicação considera fratura prévia, T-score e FRAX
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica ou fisioterapêutica. A indicação de densitometria e tratamento farmacológico deve ser individualizada. As estimativas e diretrizes citadas vêm principalmente de estudos internacionais, com mulheres na pós-menopausa.
Vídeo sobre o tema
Osteoporose
SBOT · canal oficial
Produzido por sociedade médica, não por nós. O player só carrega quando você clica. Ver todos os 50 vídeos →
Referências
- Black DM, Delmas PD, Eastell R, et al. Once-yearly zoledronic acid for treatment of postmenopausal osteoporosis. N Engl J Med. 2007;356(18):1809–1822. NEJM
- Black DM, Rosen CJ. Clinical practice. Postmenopausal osteoporosis. N Engl J Med. 2016;374(3):254–262. NEJM
- Compston J, Cooper A, Cooper C, et al. UK clinical guideline for the prevention and treatment of osteoporosis. Arch Osteoporos. 2017;12(1):43. Arch Osteoporos
- Giangregorio LM, Papaioannou A, Macintyre NJ, et al. Too Fit To Fracture: exercise recommendations for individuals with osteoporosis or osteoporotic vertebral fracture. Osteoporos Int. 2014;25(3):821–835. Osteoporos Int
- Howe TE, Shea B, Dawson LJ, et al. Exercise for preventing and treating osteoporosis in postmenopausal women. Cochrane Database Syst Rev. 2011;(7):CD000333. Cochrane
- Kanis JA, Cooper C, Rizzoli R, et al. European guidance for the diagnosis and management of osteoporosis in postmenopausal women. Osteoporos Int. 2019;30(1):3–44. Osteoporos Int
- LeBoff MS, Chou SH, Ratliff KA, et al. Supplemental vitamin D and incident fractures in midlife and older adults. N Engl J Med. 2022;387(4):299–309. NEJM
- LeBoff MS, Greenspan SL, Insogna KL, et al. The clinician's guide to prevention and treatment of osteoporosis. Osteoporos Int. 2022;33(10):2049–2102. Osteoporos Int
- Lorentzon M, Johansson H, Harvey NC, et al. Osteoporosis and fractures in women: the burden of disease. Climacteric. 2022;25(1):4–10. Climacteric
- Sherrington C, Fairhall NJ, Wallbank GK, et al. Exercise for preventing falls in older people living in the community. Cochrane Database Syst Rev. 2019;(1):CD012424. Cochrane
- US Preventive Services Task Force. Screening for osteoporosis to prevent fractures: US Preventive Services Task Force recommendation statement. JAMA. 2025;333(6):498–508. JAMA
- Watson SL, Weeks BK, Weis LJ, et al. High-intensity resistance and impact training improves bone mineral density and physical function in postmenopausal women with osteopenia and osteoporosis: the LIFTMOR randomized controlled trial. J Bone Miner Res. 2018;33(2):211–220. JBMR
- Wells GA, Cranney A, Peterson J, et al. Alendronate for the primary and secondary prevention of osteoporotic fractures in postmenopausal women. Cochrane Database Syst Rev. 2008;(1):CD001155. Cochrane