O que é sarcopenia
O consenso europeu EWGSOP2 (2019) descreve a sarcopenia como uma doença muscular (falência muscular) que se acumula ao longo da vida, com a baixa força muscular como característica principal. É mais comum em idosos, mas pode ocorrer mais cedo. Não é apenas uma questão estética: a sarcopenia está associada a mais risco de quedas e fraturas, dificuldade para as atividades do dia a dia, hospitalização, perda de independência e morte (Cruz-Jentoft et al., 2019).
Uma revisão de estudos sobre o efeito da idade no músculo (Mitchell et al., 2012) encontrou, em comparações entre jovens e idosos, uma perda mediana de massa muscular de cerca de 0,47% ao ano nos homens e 0,37% ao ano nas mulheres. Em estudos que acompanharam pessoas por anos, aos 75 anos a massa cai de 0,64 a 0,70% ao ano nas mulheres e de 0,80 a 0,98% nos homens, e a força cai mais depressa que a massa (3 a 4% ao ano nos homens e 2,5 a 3% nas mulheres aos 75 anos). Os números variam muito conforme a técnica de medida e a população estudada.
A frequência depende do critério usado para definir a doença: uma metanálise com 151 estudos (692.056 pessoas) encontrou prevalência entre 10% e 27% segundo os critérios (de 10% a 27% em maiores de 60 anos; Petermann-Rocha et al., 2022), e as diretrizes internacionais citam de 6% a 22% dos idosos (Dent et al., 2018). Ainda não há um critério único aceito em todo o mundo.
Por que o músculo importa além da estética
Estudos que acompanharam idosos mostram associação entre sarcopenia e desfechos ruins. Em uma metanálise de 33 estudos (45.926 pessoas), quem tinha sarcopenia teve mais quedas (OR 1,60 em estudos transversais e 1,89 em prospectivos) e mais fraturas (OR 1,84 e 1,71; Yeung et al., 2019). Em outra metanálise, a sarcopenia se associou a mortalidade maior (OR 3,6) e a declínio funcional (OR 3,03, em 6 estudos; Beaudart et al., 2017). Limite: são associações observacionais, que não provam que a perda de músculo seja a causa, e os estudos usaram definições diferentes de sarcopenia.
Uma metanálise em rede (Shen et al., 2023) reuniu 42 ensaios randomizados com 3.728 pessoas com sarcopenia (idade mediana de 72,9 anos; 73% mulheres) e acompanhamento mediano de apenas 12 semanas. Com certeza de evidência moderada a alta, o treino resistido, com ou sem nutrição, e a combinação de resistência com aeróbico e equilíbrio foram as intervenções mais eficazes para a qualidade de vida em relação ao cuidado habitual (diferença padronizada de 0,68 a 1,11). Na força de preensão manual, o melhor resultado foi de resistência e equilíbrio com nutrição (4,19 kg a mais; abaixo da diferença mínima importante de 5 kg). Na velocidade da marcha, resistência e equilíbrio, com ou sem nutrição, aumentaram 0,16 m/s (diferença mínima importante: 0,1 m/s). Acrescentar nutrição ao exercício teve efeito maior sobre a preensão manual do que o exercício sozinho, mas efeito semelhante nas demais medidas.
Uma revisão de revisões (Beckwée et al., 2019; 14 revisões sistemáticas ou metanálises) encontrou evidência de alta qualidade de que o treino resistido melhora massa muscular, força e desempenho físico, e concluiu que o efeito adicional da suplementação nutricional sobre a função muscular parece limitado. Os autores sugerem treinar os grandes grupos musculares de forma global; treino de baixa intensidade (até 50% de 1 repetição máxima) já aumenta a força, e treino de alta intensidade (80%) foi recomendado para o ganho máximo. Limitações: poucas revisões informaram se os participantes tinham sarcopenia de fato, e o seguimento dos ensaios é curto, de modo que não se sabe por quanto tempo os ganhos se mantêm.
Fontes: Shen Y, et al. J Cachexia Sarcopenia Muscle. 2023;14(3):1199–1211 · Beckwée D, et al. J Nutr Health Aging. 2019;23(6):494–502.Como diagnosticar
O consenso europeu EWGSOP2 (2019) propõe quatro passos: encontrar casos, avaliar, confirmar e definir a gravidade.
- Encontrar casos: questionário SARC-F (pontuação ≥ 4 indica risco de desfechos ruins; Malmstrom et al., 2016) ou suspeita clínica. O SARC-F tem sensibilidade baixa a moderada e especificidade muito alta, então detecta sobretudo os casos mais graves
- Avaliar a força (sarcopenia provável): força de preensão < 27 kg (homens) ou < 16 kg (mulheres), ou teste de levantar-se da cadeira 5 vezes em mais de 15 segundos
- Confirmar: baixa quantidade muscular, preferencialmente por DEXA na prática clínica (massa muscular apendicular indexada pela altura < 7,0 kg/m² nos homens e < 5,5 kg/m² nas mulheres). Os pontos de corte dependem do método e do equipamento
- Gravidade (sarcopenia grave): baixo desempenho físico, como velocidade de marcha ≤ 0,8 m/s, Short Physical Performance Battery (SPPB) ≤ 8 pontos ou Timed Up and Go ≥ 20 segundos
O EWGSOP2 considera a velocidade da marcha (teste de 4 metros) um teste rápido, seguro e confiável, e o teste de sentar-levantar 5 vezes um indicador da força das pernas, ambos úteis na prática. Os pontos de corte vêm principalmente de populações europeias e podem não se aplicar igualmente a brasileiros.
A revisão Cochrane de Liu e Latham (2009) incluiu 121 ensaios com 6.700 idosos (não apenas com sarcopenia). Na maioria dos ensaios, o treino resistido progressivo foi feito 2 a 3 vezes por semana e em alta intensidade. Houve efeito grande sobre a força muscular (73 ensaios; diferença padronizada de 0,84), melhora modesta da velocidade da marcha (0,08 m/s) e melhora pequena da capacidade física global (diferença padronizada de 0,14). Eventos adversos graves foram raros e nenhum foi atribuído diretamente ao programa, mas os eventos adversos foram mal registrados, e os autores recomendam cautela ao transferir esses programas para populações clínicas.
Em um ensaio clássico com 100 residentes frágeis de casa de repouso (idade média de 87 anos, de 72 a 98; Fiatarone et al., 1994), 10 semanas de treino resistido de alta intensidade aumentaram a força em 113%, contra 3% no grupo sem exercício, e a velocidade da marcha em 11,8%, contra uma queda de 1,0%. A área do músculo da coxa aumentou 2,7% contra uma queda de 1,8%, mas essa diferença não foi estatisticamente significativa (P = 0,11). O suplemento multinutriente, sem exercício, não reduziu a fraqueza nem a fragilidade. Os dados mostram ganho de força mesmo em idade muito avançada, mas por poucas semanas e em amostra pequena.
Fontes: Liu CJ, Latham NK. Cochrane Database Syst Rev. 2009;(3):CD002759 · Fiatarone MA, et al. N Engl J Med. 1994;330(25):1769–1775.Tratamento
As diretrizes internacionais (ICFSR, 2018) recomendam fortemente o exercício de resistência para tratar a sarcopenia e recomendam, de forma condicional, suplementação proteica ou dieta rica em proteínas. Não fazem recomendação sobre vitamina D nem sobre hormônios anabolizantes, e consideram que falta evidência robusta para outras opções, incluindo medicamentos em desenvolvimento (Dent et al., 2018).
- Exercício resistido progressivo: é o componente com mais evidência. Deve ser individualizado e progressivo, e treinar os grandes grupos musculares (por exemplo, pernas, costas e braços), conforme a tolerância (Beckwée et al., 2019). Programas que somam equilíbrio e exercício aeróbico também foram eficazes (Shen et al., 2023).
- Proteína na dieta: o grupo PROT-AGE (Bauer et al., 2013) recomenda, para maiores de 65 anos, ingestão média de pelo menos 1,0 a 1,2 g de proteína por kg de peso por dia; ao menos 1,2 g/kg para quem faz exercício e, para a maioria dos idosos com doenças agudas ou crônicas, de 1,2 a 1,5 g/kg. Pessoas com doença renal grave (taxa de filtração glomerular < 30 mL/min/1,73 m²) que não fazem diálise são exceção e podem precisar limitar a proteína. O grupo considerou que a evidência sobre a distribuição ao longo do dia e sobre a qualidade da proteína ainda é insuficiente para recomendações específicas. Como visto acima, o benefício adicional de suplementos sobre o exercício foi pequeno nos estudos.
A quantidade de proteína e o uso de suplementos devem ser definidos com médico ou nutricionista, principalmente em quem tem doença renal.
Sarcopenia e coluna vertebral
Estudos de imagem mostram que pessoas com dor lombar têm, em média, mais gordura dentro do músculo multífido (diferença padronizada de 0,61) e, possivelmente, multífido um pouco menor, embora essa diferença de tamanho não tenha sido estatisticamente significativa (Seyedhoseinpoor et al., 2022; 25 estudos). Não foram encontradas diferenças nos músculos eretores da espinha nem no psoas. Limites: são comparações em um único momento, que não provam que a fraqueza muscular cause a dor, e os resultados variaram entre os estudos. Também não encontramos estudo que mostre que tratar a sarcopenia previna deformidades da coluna. O exercício para a coluna é um tratamento bem estudado para dor lombar, e está descrito em outras páginas deste site.
- Perda de peso involuntária, sem dieta ou mudança de hábito (é preciso investigar a causa)
- Fraqueza muscular de início súbito (pode ser sinal de AVC ou de doença muscular inflamatória)
- Dor muscular intensa associada a fraqueza (miosite)
- Quedas de repetição (a sarcopenia se associa a mais quedas e fraturas)
- Dificuldade de deglutição associada a fraqueza (miopatia sistêmica)
Resumo
- A frequência da sarcopenia varia de 10% a 27% conforme o critério usado, e ela se associa a mais quedas, fraturas e mortalidade (estudos observacionais)
- Diagnóstico (EWGSOP2): baixa força muscular (sarcopenia provável), confirmada por baixa quantidade muscular; baixo desempenho físico indica sarcopenia grave
- Tratamento com mais evidência: treinamento resistido progressivo, em geral 2 a 3 vezes por semana nos ensaios, com a dose ideal ainda não definida
- Proteína: pelo menos 1,0 a 1,2 g/kg/dia em maiores de 65 anos, com ajuste individual; o ganho adicional de suplementos sobre o exercício foi pequeno
- Ganhos de força foram documentados mesmo em idosos muito frágeis (até 98 anos em um ensaio de 10 semanas)
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica ou fisioterapêutica. Avaliação individualizada é essencial antes de iniciar qualquer programa de exercícios.
Perdendo força e massa muscular com a idade?
A avaliação mostra se há perda de força e de função, e um programa de exercício resistido orientado é o tratamento com mais evidência para melhorar força e desempenho.
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- Beaudart C, Zaaria M, Pasleau F, et al. Health outcomes of sarcopenia: a systematic review and meta-analysis. PLoS One. 2017;12(1):e0169548. PLoS One
- Beckwée D, Delaere A, Aelbrecht S, et al. Exercise interventions for the prevention and treatment of sarcopenia. A systematic umbrella review. J Nutr Health Aging. 2019;23(6):494–502. J Nutr Health Aging
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- Dent E, Morley JE, Cruz-Jentoft AJ, et al. International Clinical Practice Guidelines for Sarcopenia (ICFSR): screening, diagnosis and management. J Nutr Health Aging. 2018;22(10):1148–1161. J Nutr Health Aging
- Fiatarone MA, O'Neill EF, Ryan ND, et al. Exercise training and nutritional supplementation for physical frailty in very elderly people. N Engl J Med. 1994;330(25):1769–1775. NEJM
- Liu CJ, Latham NK. Progressive resistance strength training for improving physical function in older adults. Cochrane Database Syst Rev. 2009;(3):CD002759. Cochrane
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