O que é
O hálux valgo é o desvio do dedão do pé em direção aos outros dedos, acompanhado do desvio do primeiro osso do metatarso para o lado de dentro. A proeminência que aparece no lado de dentro do pé, o que todo mundo chama de joanete, não é um osso que "nasceu": é a cabeça do metatarso ficando exposta porque o alinhamento da articulação mudou.
Essa distinção é prática. Como a proeminência vem do desalinhamento, as medidas não cirúrgicas são tratamentos de primeira linha voltados à dor e não à correção da deformidade. O que realinha o osso é a cirurgia (osteotomia); o que muda o sintoma pode ser bem mais simples.
Fonte: Dias CG, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2024;(7):CD013726.Quão comum é
Uma revisão sistemática com metanálise reuniu 76 levantamentos populacionais, com quase 497 mil participantes. Os números:
A prevalência aumenta com a idade e é mais que o dobro em mulheres. Os próprios autores apontam variação importante entre os estudos, ligada ao método de amostragem, à qualidade dos estudos e à forma de diagnosticar o hálux valgo, mas a direção é consistente.
Fonte: Nix S, et al. J Foot Ankle Res. 2010;3:21.Por que acontece
A herança familiar pesa. No Framingham Foot Study (1.370 adultos com árvore genealógica), a herdabilidade do hálux valgo foi significativa, variando de 0,29 a 0,89 conforme a idade e o sexo. Num estudo de gêmeos coreanos (1.265 adultos), a herdabilidade foi de 0,51 (IC 95% 0,42 a 0,59), com contribuição desprezível do ambiente compartilhado. Isso ajuda a explicar por que a mesma deformidade aparece em várias pessoas da mesma família.
Calçado de bico estreito e salto alto, pé plano e frouxidão ligamentar são fatores frequentemente citados, mas não os confirmamos aqui com um estudo, então não afirmamos quanto cada um contribui. O que você controla é o conforto: um calçado largo na frente costuma ser recomendado para reduzir o atrito sobre a proeminência, mas isso é orientação de bom senso e não resultado de um ensaio.
Fontes: Hannan MT, et al. Arthritis Care Res. 2013;65(9):1515-1521 · Lee CH, et al. Twin Res Hum Genet. 2014;17(2):121-126.Palmilha e órtese: o que elas fazem (e o que não fazem)
O estudo que melhor responde é um ensaio randomizado finlandês com 209 pacientes (idade média 48 anos, 93% mulheres), todos com joanete doloroso e ângulo de hálux valgo de até 35 graus. Eles foram sorteados para cirurgia (osteotomia distal em chevron), órtese ou lista de espera de 1 ano (grupo controle).
Aos 6 meses, a dor ao caminhar diminuiu mais com a órtese do que no grupo controle (diferença ajustada de -14 pontos em 100; IC 95% -22 a -6). Os autores concluem que as órteses oferecem alívio sintomático de curto prazo.
Uma revisão sistemática com metanálise de 18 estudos sobre tratamentos não cirúrgicos (Hurn et al., 2022) encontrou que a maioria dos estudos era pequena e com risco de viés, e que as metanálises de órteses, talas, terapia manual e fita adesiva associada a exercícios não mostraram efeito significativo nos desfechos principais, embora alguns estudos isolados tenham mostrado redução de dor. A conclusão foi de baixa certeza, com redução da dor mais provável do que melhora do ângulo do hálux. Uma revisão de rede mais recente (Zhu et al., 2026; 11 ensaios, 401 pacientes) sugeriu que o exercício reduz o ângulo em cerca de 3 graus (IC 95% -4,4 a -2,2), e mais quando combinado com fita ou órtese, mas os próprios autores pedem ensaios maiores e de melhor qualidade. Já um estudo-piloto com 28 mulheres (Menz et al., 2023), que combinou calçado, órteses e exercícios, concluiu que um ensaio nesse formato não era viável, principalmente pela baixa adesão ao programa.
Fontes: Torkki M, et al. JAMA. 2001;285(19):2474-2480 · Hurn SE, et al. Arthritis Care Res. 2022;74(10):1676-1688 · Zhu Z, et al. Foot Ankle Surg. 2026;32(3):199-212 · Menz HB, et al. J Foot Ankle Res. 2023;16(1):78.Cirurgia: o que o ensaio randomizado mostrou
No mesmo ensaio (Torkki et al., 2001), ao completar 1 ano, a proporção de pacientes que se consideravam melhores em relação ao início foi:
- 83% no grupo operado
- 46% no grupo com órtese
- 24% no grupo controle, que ficou na lista de espera
O número necessário para tratar (NNT) entre cirurgia e controle foi de 1,7. Número de dias com dor, incômodo estético e problemas com calçado foram menores, e o estado funcional e a satisfação foram melhores no grupo operado. A conclusão dos autores é que a osteotomia cirúrgica é eficaz para o hálux valgo doloroso. A palavra "doloroso" faz parte da conclusão: todos os participantes tinham dor.
O que mudou aos 2 anos. O seguimento de 2 anos do mesmo ensaio (Torkki et al., 2003) mostrou que, ao final do segundo ano, a intensidade da dor era semelhante nos três grupos. Isso aconteceu em parte porque muitos pacientes dos grupos de espera acabaram operados (43 de 69 no grupo da órtese e 48 de 69 no grupo sem órtese, contra 66 de 71 no grupo operado desde o início). Os autores concluem que a cirurgia imediata foi superior à cirurgia adiada ou à órtese no primeiro ano, mas que esperar 1 ano, com ou sem órtese, não comprometeu o resultado final.
Uma revisão Cochrane de 2024 (25 estudos, 1.597 participantes) concluiu que a cirurgia pode reduzir a dor de forma clinicamente importante em comparação com não tratar ou com tratamento não cirúrgico, mas com baixa certeza de evidência: só um estudo (140 participantes) fez essa comparação, e a maioria dos ensaios tinha risco de viés. Não houve ensaio com cirurgia simulada (placebo). Osteotomias simples e complexas tiveram dor semelhante, e as complexas podem aumentar a reoperação. Os autores consideram incertos os efeitos sobre complicações.
Fontes: Torkki M, et al. JAMA. 2001;285(19):2474-2480 · Torkki M, et al. Acta Orthop Scand. 2003;74(2):209-215 · Dias CG, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2024;(7):CD013726.Repare no que o estudo não testou: pacientes sem dor, operando só pela aparência. Todos os participantes tinham dor e deformidade de até 35 graus, então os resultados valem para esse perfil, e a indicação de cirurgia deve se basear na dor e na limitação, e não só na aparência.
A parte que raramente é dita: recidiva
Uma revisão sistemática com metanálise de estudos observacionais, com 23 estudos e 2.914 pessoas operadas, encontrou uma taxa agrupada de recidiva de 24,86% (intervalo de confiança de 19,2% a 30,6%). Ou seja: aproximadamente 1 em cada 4 voltou a apresentar o desvio ao longo do tempo. A heterogeneidade entre os estudos foi muito alta (I² de 92%), então esse número é uma estimativa média, e não uma previsão para cada pessoa.
A mesma revisão identificou fatores associados à recidiva: o ângulo de hálux valgo e o ângulo intermetatarsal antes da cirurgia (associação moderada), e principalmente o ângulo de hálux valgo e a posição dos sesamoides depois da cirurgia (associação forte, com intervalos de confiança largos). Deformidades maiores no começo e correção incompleta no fim se associaram a mais recidiva. Os autores também observaram que a força dessas associações varia com a idade.
Isso não é argumento contra operar: o benefício na dor aparece nos ensaios em quem tem dor. É argumento a favor de escolher bem o momento, a técnica e o cirurgião, e de entrar na cirurgia com expectativa calibrada.
Fonte: Ezzatvar Y, et al. J Clin Med. 2021;10(24):5753.Quando procurar avaliação
- Dor que limita caminhar ou obriga a abrir mão de calçados do dia a dia
- Ferida, calosidade dolorosa ou vermelhidão persistente sobre a proeminência
- Dedos menores começando a montar uns sobre os outros ou a deformar em garra
- Dor na sola do pé, na base dos outros dedos (metatarsalgia de transferência)
- Piora rápida do desvio
Joanete que dói ou atrapalha o calçado?
O Dr. Vinícius Alvarenga Pereira, membro titular da SBOT e da ABTPé, é especialista em pé e tornozelo e pode avaliar o seu caso.
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Hálux valgo (joanete)
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Referências científicas
- Dias CG, Godoy-Santos AL, Ferrari J, et al. "Surgical interventions for treating hallux valgus and bunions." Cochrane Database Syst Rev. 2024;(7):CD013726. Cochrane
- Ezzatvar Y, López-Bueno L, Fuentes-Aparicio L, Dueñas L. "Prevalence and Predisposing Factors for Recurrence after Hallux Valgus Surgery: A Systematic Review and Meta-Analysis." J Clin Med. 2021;10(24):5753. J Clin Med
- Hannan MT, Menz HB, Jordan JM, et al. "High heritability of hallux valgus and lesser toe deformities in adult men and women." Arthritis Care Res (Hoboken). 2013;65(9):1515-1521. Arthritis Care Res
- Hurn SE, Matthews BG, Munteanu SE, Menz HB. "Effectiveness of Nonsurgical Interventions for Hallux Valgus: A Systematic Review and Meta-Analysis." Arthritis Care Res (Hoboken). 2022;74(10):1676-1688. Arthritis Care Res
- Lee CH, Lee S, Kang H, et al. "Genetic influences on hallux valgus in Koreans: the healthy twin study." Twin Res Hum Genet. 2014;17(2):121-126. Twin Res Hum Genet
- Menz HB, Lim PQX, Hurn SE, et al. "Nonsurgical management of hallux valgus: findings of a randomised pilot and feasibility trial." J Foot Ankle Res. 2023;16(1):78. J Foot Ankle Res
- Nix S, Smith M, Vicenzino B. "Prevalence of hallux valgus in the general population: a systematic review and meta-analysis." J Foot Ankle Res. 2010;3:21. J Foot Ankle Res
- Torkki M, Malmivaara A, Seitsalo S, et al. "Surgery vs orthosis vs watchful waiting for hallux valgus: a randomized controlled trial." JAMA. 2001;285(19):2474-2480. JAMA
- Torkki M, Malmivaara A, Seitsalo S, et al. "Hallux valgus: immediate operation versus 1 year of waiting with or without orthoses: a randomized controlled trial of 209 patients." Acta Orthop Scand. 2003;74(2):209-215. Acta Orthop Scand
- Zhu Z, Liu Y, Wang L, Liu H. "Effects of exercise combined with external support on hallux valgus angle and pain: A systematic review and network meta-analysis." Foot Ankle Surg. 2026;32(3):199-212. Foot Ankle Surg
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Nos ensaios, a cirurgia foi avaliada em pessoas com dor; a indicação deve ser individual e considerar a dor e a limitação funcional, e não só a aparência.