O que é
Escoliose é uma curvatura lateral da coluna, com ângulo de Cobb (a medida-padrão em radiografia) de 10° ou mais. A forma mais comum é a escoliose idiopática do adolescente, que surge entre os 10 e os 18 anos sem uma causa identificável: ela é diagnosticada por exclusão, por isso o primeiro atendimento inclui história pessoal e familiar e um exame médico e neurológico completos. Existem também formas na infância e na vida adulta, que não são o tema desta página.
Fontes: USPSTF. JAMA. 2018;319(2):165-172 · Negrini S, et al. Scoliosis Spinal Disord. 2018;13:3.Quão comum é
Uma revisão da literatura internacional encontrou prevalência de 0,47% a 5,2% entre adolescentes, com meninas afetadas 1,5 a 3 vezes mais que meninos. A diferença aumenta com a gravidade: a proporção sobe de 1,4 menina para cada menino nas curvas de 10° a 20° para 7,2 meninas para cada menino nas curvas acima de 40°. Os autores alertam que esses números vêm de programas de rastreio escolar com métodos e idades diferentes, e por isso não são totalmente comparáveis.
No Brasil, estudos em escolares encontraram prevalências na mesma faixa, com métodos e idades também diferentes: 4,3% em Goiânia (418 estudantes de 10 a 14 anos), 2,2% em Cuiabá (3.105 escolares; curvas acima de 10°), 1,4% em Carlos Barbosa, no Rio Grande do Sul (1.340 estudantes) e 1,5% em cidades do estado de São Paulo (2.562 adolescentes de 10 a 14 anos), com 2,2% nas meninas contra 0,5% nos meninos. Em Goiânia, a diferença entre os sexos não foi significativa. São amostras de escolas públicas de cada local, e não representam o país inteiro.
Fontes: Konieczny MR, et al. J Child Orthop. 2013;7(1):3-9 · de Souza FI, et al. Acta Ortop Bras. 2013;21(4):223-225 · do Espírito Santo A, et al. Rev Bras Epidemiol. 2011;14(2):347-356 · Nery LS, et al. Sao Paulo Med J. 2010;128(2):69-73 · Penha PJ, et al. Spine. 2018;43(24):1710-1718.Como se decide o tratamento
Não existe um corte único em graus que sirva para todos. A decisão depende da idade, da maturidade do esqueleto (o grau de Risser), do tamanho da curva e de sua progressão, e cabe ao ortopedista. O que os documentos conferidos mostram:
- Colete: o ensaio BrAIST estudou adolescentes de 10 a 15 anos, com esqueleto ainda imaturo (Risser 0 a 2) e curvas de 20° a 40°. A diretriz SOSORT, para estudos de colete, propõe critérios semelhantes (a partir de 10 anos, Risser 0 a 2, curva de 25° a 40°).
- Limite de 50°: o BrAIST definiu como fracasso a progressão para 50° ou mais, considerada o limiar para cirurgia.
- Metas do tratamento conservador (consenso SOSORT): o objetivo absoluto é evitar a cirurgia. Em curvas de gravidade baixa, a meta é manter a curva abaixo de 20°; nas moderadas, abaixo de 30°; nas graves, abaixo de 45°. Esse esquema é baseado em consenso de especialistas, não em ensaios.
- Por que acompanhar: se a curva, ao fim do crescimento, passar de um "limiar crítico" (a maioria dos autores o situa entre 30° e 50°), aumentam os riscos de problemas na vida adulta, como dor e limitação funcional.
O BrAIST (New England Journal of Medicine, 2013) analisou 242 adolescentes: 116 foram sorteados para colete ou observação, e 126 escolheram entre as duas opções. O colete rígido era prescrito para pelo menos 18 horas por dia. Entre os sorteados, o sucesso (não chegar a 50° antes de o esqueleto amadurecer) ocorreu em 75% com colete e 42% com observação (razão de chances 4,11; IC 95% 1,85 a 9,16). Na análise que juntou sorteados e quem escolheu, os números foram 72% contra 48%. O estudo foi interrompido antes do previsto por causa da eficácia do colete.
Quanto mais horas de uso, maior a taxa de sucesso: no quarto de pacientes que menos usou o colete (média de até 6 horas por dia), o sucesso foi de 41%, parecido com o da observação; com média de pelo menos 12,9 horas por dia, ficou entre 90% e 93%. Limites: essa relação entre horas e resultado é observacional (quem usa mais o colete pode diferir de quem usa menos), e o uso médio real, de 12,1 horas por dia nos primeiros 6 meses, ficou abaixo das 18 horas prescritas. O estudo avaliou curvas de 20° a 40° em adolescentes com risco de progressão, e o desfecho foi evitar chegar a 50°. A força-tarefa americana (USPSTF) considerou haver evidência adequada de que o colete pode retardar a progressão em curvas leves a moderadas, mas inadequada sobre a relação entre reduzir a curva na adolescência e a saúde na vida adulta. Antes do BrAIST, uma revisão sistemática citada na SOSORT não encontrou como recomendar colete ou observação para evitar cirurgia, por estudos inconsistentes.
Fontes: Weinstein SL, Dolan LA, Wright JG, Dobbs MB. N Engl J Med. 2013;369(16):1512-1521 · USPSTF. JAMA. 2018;319(2):165-172 · Negrini S, et al. Scoliosis Spinal Disord. 2018;13:3.Exercícios específicos (método Schroth) ajudam?
Pode ser que ajudem, mas a evidência ainda é pouca. Uma revisão Cochrane de 2024 reuniu 13 ensaios (583 participantes) sobre exercícios terapêuticos na escoliose idiopática do adolescente e concluiu que a evidência é escassa, por causa de heterogeneidade, amostras pequenas e muitas comparações diferentes. Comparando exercícios com nenhum tratamento, os autores ficaram incertos se reduzem o ângulo de Cobb (diferença de 3,6°; 2 estudos, 52 participantes). Com evidência de baixa certeza, exercícios específicos somados ao colete podem reduzir o ângulo em 2,2° em comparação com o colete sozinho (2 estudos, 84 participantes). Só um estudo seguiu os participantes até o fim do crescimento. Nenhum dos estudos avaliou efeitos adversos. Por isso, os exercícios entram como complemento, e não como substituto do colete quando ele é indicado.
Fonte: Romano M, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2024;2(2):CD007837.Sobre o rastreio nas escolas
Em 2018, a força-tarefa americana de prevenção (USPSTF) concluiu que a evidência atual é insuficiente para avaliar o equilíbrio entre benefícios e danos do rastreio da escoliose idiopática em crianças e adolescentes de 10 a 18 anos (declaração "I"). Ela não encontrou evidência direta ligando o rastreio a melhores resultados de saúde, nem evidência sobre os possíveis danos do rastreio. Isso não significa que a avaliação individual na consulta não tenha valor. Um estudo paulista também observa que o Brasil não tem política pública de rastreio escolar e sugere reconsiderar a recomendação de rastrear meninos e meninas de 10 a 14 anos, já que a escoliose é mais frequente aos 13-14 anos e a puberdade masculina é mais tardia.
Fontes: USPSTF. JAMA. 2018;319(2):165-172 · Penha PJ, et al. Spine. 2018;43(24):1710-1718.⚠️ Quando a escoliose exige investigação extra
- Início precoce da escoliose
- Sexo masculino
- Padrão de curva atípico
- Cifose torácica (corcunda)
- Sinais neurológicos, como reflexos ou sensibilidade alterados
Fora desses casos, converse com a ou agende uma avaliação para acompanhar a curva.
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O acompanhamento regular permite decidir o melhor momento de cada etapa do tratamento.
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Referências científicas
- Negrini S, Donzelli S, Aulisa AG, et al. "2016 SOSORT guidelines: orthopaedic and rehabilitation treatment of idiopathic scoliosis during growth." Scoliosis Spinal Disord. 2018;13:3. Scoliosis Spinal Disord
- Weinstein SL, Dolan LA, Wright JG, Dobbs MB. "Effects of bracing in adolescents with idiopathic scoliosis." N Engl J Med. 2013;369(16):1512-1521. NEJM
- Romano M, Minozzi S, Bettany-Saltikov J, et al. "Therapeutic exercises for idiopathic scoliosis in adolescents." Cochrane Database Syst Rev. 2024;2(2):CD007837. Cochrane
- US Preventive Services Task Force, Grossman DC, Curry SJ, et al. "Screening for adolescent idiopathic scoliosis: US Preventive Services Task Force recommendation statement." JAMA. 2018;319(2):165-172. JAMA
- Heemskerk JL, Kruyt MC, Colo D, Castelein RM, et al. "Prevalence and risk factors for neural axis anomalies in idiopathic scoliosis: a systematic review." Spine J. 2018;18(7):1261-1271. Spine J
- Konieczny MR, Senyurt H, Krauspe R. "Epidemiology of adolescent idiopathic scoliosis." J Child Orthop. 2013;7(1):3-9. J Child Orthop
- de Souza FI, Di Ferreira RB, Labres D, et al. "Epidemiologia da escoliose idiopática do adolescente em alunos da rede pública de Goiânia-GO." Acta Ortop Bras. 2013;21(4):223-225. Acta Ortop Bras
- do Espírito Santo A, Guimarães LV, Galera MF. "Prevalência de escoliose idiopática e variáveis associadas em escolares do ensino fundamental de escolas municipais de Cuiabá, MT, 2002." Rev Bras Epidemiol. 2011;14(2):347-356. Rev Bras Epidemiol
- Nery LS, Halpern R, Nery PC, et al. "Prevalence of scoliosis among school students in a town in southern Brazil." Sao Paulo Med J. 2010;128(2):69-73. Sao Paulo Med J
- Penha PJ, Ramos NLJP, de Carvalho BKG, et al. "Prevalence of adolescent idiopathic scoliosis in the state of São Paulo, Brazil." Spine (Phila Pa 1976). 2018;43(24):1710-1718. Spine
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. O acompanhamento regular é o que permite decidir o momento certo de cada etapa do tratamento.