Ilustração 3D anatômica da dor no pescoço (cervicalgia mecânica): vista lateral da coluna cervical C1-C7 mostrando vértebras, discos intervertebrais, musculatura cervical com tensão em vermelho-alaranjado em C5-C6, splenius capitis, semispinalis capitis, medula e nervo espinal
Vista lateral da coluna cervical — tensão muscular (laranja) e compressão discal em C5-C6, nível mais frequente na cervicalgia mecânica

O que é

A cervicalgia é a dor na região do pescoço, podendo se irradiar para ombros, braços ou cabeça. Os quadros mais comuns são:

Em uma revisão da literatura, a prevalência mundial padronizada por idade da dor no pescoço foi de 27,0 por 1.000 pessoas em 2019 (cerca de 2,7%). Estresse prolongado, falta de apoio social, ansiedade e depressão apareceram como fatores de risco importantes.

Fonte: Kazeminasab S, et al. BMC Musculoskelet Disord. 2022;23(1):26.
Exercício, terapia manual ou os dois: o que as revisões Cochrane mostram
  • Exercício (Gross et al., 2015): 27 ensaios (2.485 participantes analisados). Para dor cervical crônica, há evidência de qualidade moderada de que o fortalecimento cervico-escapulo-torácico e dos membros superiores reduz a dor logo após o tratamento (diferença padronizada −0,71; IC 95% −1,33 a −0,10) e a curto prazo, e de que combinar fortalecimento e alongamento melhora dor (−0,33; −0,55 a −0,10) e função (−0,45; −0,72 a −0,18). Só alongamento, sem fortalecimento, não deve trazer benefício. Para dor aguda isolada, a revisão não encontrou evidência. Os autores concluem que não há evidência de alta qualidade.
  • Terapia manual com exercício (Chacko et al., 2025): 9 ensaios (694 participantes), quase todos de dor crônica e com seguimento de cerca de 4 semanas. Contra placebo (2 estudos, 114 participantes), a combinação teve pouca ou nenhuma diferença na dor (0,91 ponto numa escala de 0 a 10; IC 95% 1,85 melhor a 0,04 pior) e melhorou a função em cerca de 10 pontos (0 a 100). Contra nenhum tratamento (7 estudos, 360 participantes), houve redução de 2,44 pontos na dor. A certeza da evidência foi baixa.
  • Manipulação e mobilização isoladas (Gross et al., 2015): 51 ensaios (2.920 participantes). A manipulação torácica melhorou a dor a curto prazo em dor aguda e subaguda (5 ensaios, 346 participantes, qualidade moderada; diferença padronizada −1,26; IC 95% −1,86 a −0,66), mas há suspeita de viés de publicação. A mobilização isolada pode não reduzir a dor mais que o controle inativo. Os autores registram que existe risco de eventos adversos raros, porém graves, com a manipulação.

Uma metanálise de 6 ensaios (Carrasco-Uribarren et al., 2024) não encontrou diferença entre manipulação cervical e manipulação torácica ou cervicotorácica para dor, incapacidade e amplitude de movimento, com certeza da evidência de moderada a muito baixa.

Fontes: Gross A, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2015;(1):CD004250 · Chacko N, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2025;12:CD011225 · Gross A, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2015;(9):CD004249 · Carrasco-Uribarren A, et al. Musculoskelet Sci Pract. 2024;71:102927.
Componente cervical em dores do ombro

Em um estudo observacional com 60 pacientes com dor no ombro (Roldán-Ruiz et al., 2024), a prevalência de contribuição cervical foi de 50% (IC 95% 37,4% a 62,7%). Considerou-se contribuição cervical quando a dor no ombro mudava 30% ou mais ao movimento ativo após um conjunto de testes da coluna cervical. A contribuição foi mais provável em quem teve centralização da dor após os testes (p = 0,002) e em quem tinha história de dor no pescoço (p = 0,007).

Limitação: amostra pequena e desenho observacional. Mesmo assim, o achado sugere que vale avaliar a coluna cervical quando a dor no ombro não segue o padrão esperado.

Fonte: Roldán-Ruiz A, et al. Musculoskelet Sci Pract. 2024;73:103158.

Sobre imagem (RM e raio-X cervical)

A ressonância magnética cervical frequentemente mostra "protrusões discais" que podem não ter relação com a dor. Em um estudo com 1.211 voluntários sem sintomas (20 a 70 anos), 87,6% tinham abaulamento discal, inclusive 73,3% dos homens e 78,0% das mulheres na faixa dos 20 anos. Compressão da medula foi vista em 5,3% e alteração de sinal na medula em 2,3%, e esses achados aumentaram a partir dos 50 anos. Por isso o resultado da imagem precisa ser lido junto com o quadro clínico.

Fonte: Nakashima H, et al. Spine. 2015;40(6):392–398.

A diretriz OPTIMa orienta primeiro descartar patologia estrutural importante e, depois, classificar a dor pelo grau. A imagem é indicada quando há sinais de alerta (ver abaixo) ou suspeita de radiculopatia ou mielopatia que não responde ao tratamento conservador.

Fonte: Côté P, et al. Eur Spine J. 2016;25(7):2000–2022.

O que as diretrizes recomendam

Fontes: Côté P, et al. Eur Spine J. 2016;25(7):2000–2022 · Bier JD, et al. Phys Ther. 2018;98(3):162–171.

⚠️ Sinais de alerta — procure avaliação imediata

Vá a um pronto-socorro ou consulte urgentemente se a dor cervical vier com:
  • Fraqueza ou formigamento nos braços ou pernas — pode indicar compressão medular (mielopatia)
  • Incoordenação ao caminhar ou dificuldade de segurar objetos — sinais de mielopatia
  • Dificuldade para engolir ou respirar associada à dor no pescoço
  • Perda de controle da bexiga ou intestino
  • Dor intensa de início súbito ("pior dor da vida") — pode indicar fratura ou dissecção arterial
  • Dor cervical com febre e rigidez de nuca — descartar meningite
  • Histórico de trauma recente (queda, acidente de trânsito)

Em caso de emergência, ligue SAMU 192. Fora de uma emergência, fale com a ou agende uma avaliação.

Dor ou rigidez no pescoço há mais de 2 semanas?

Uma avaliação define se é cervicalgia mecânica (tratamento conservador) ou se há compressão de raiz nervosa ou medula que precisa de investigação adicional.

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Referências científicas

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual.