Ilustração 3D anatômica da lesão do ligamento cruzado anterior: vista frontal do joelho mostrando fêmur, patela, LCA rompido em vermelho-alaranjado, LCP intacto em azul, menisco medial, menisco lateral, tíbia e fíbula
Vista frontal do joelho — ruptura do LCA (laranja) com fibras desintegradas; LCP intacto (azul) ao fundo

O que é

O ligamento cruzado anterior (LCA) é uma das estruturas centrais de estabilidade do joelho: evita o deslizamento anterior da tíbia em relação ao fêmur e controla a rotação. Sua ruptura costuma ocorrer em movimentos de pivô sem contato — mudança brusca de direção, aterrissagem mal controlada — e produz uma sensação de "estalo" seguida de inchaço rápido.

Epidemiologia

Num estudo populacional dos EUA que reuniu 1.841 pessoas com ruptura isolada do LCA entre 1990 e 2010, a incidência foi de 68,6 casos por 100.000 pessoas-ano. Os picos ocorreram entre 19 e 25 anos nos homens e entre 14 e 18 anos nas mulheres. No mesmo período, a taxa de reconstrução cirúrgica aumentou em todas as faixas etárias.

Por esporte, o risco das mulheres é maior em algumas modalidades e igual em outras. Numa metanálise de estudos observacionais, a razão de rupturas entre mulheres e homens foi de 3,5 no basquete e 2,67 no futebol, 1,18 no lacrosse e 1,0 no esqui alpino. Os autores classificaram o nível de evidência como baixo (série de casos).

Evidência 1 — cirurgia imediata ou reabilitação primeiro? Os ensaios não concordam totalmente

KANON (Suécia). 121 adultos jovens e ativos (idade média de 26 anos) com ruptura aguda foram sorteados para reabilitação estruturada + reconstrução precoce ou reabilitação estruturada com a opção de operar depois, se necessário. Aos 2 anos, a melhora na pontuação KOOS4 foi de 39,2 pontos no grupo da cirurgia precoce e 39,4 no grupo da reabilitação (diferença de 0,2 ponto; IC 95% de −6,5 a 6,8). Aos 5 anos também não houve diferença significativa em sintomas, nível de atividade nem em artrose nova ao raio-X. No grupo da reabilitação, 23 de 59 pacientes (39%) acabaram operados em 2 anos e 30 de 59 (51%) em 5 anos.

COMPARE (Países Baixos). 167 pacientes de 18 a 65 anos com ruptura aguda. Aos 24 meses, o escore IKDC foi de 84,7 na cirurgia precoce e 79,4 na reabilitação (diferença de 5,3; IC 95% de 0,6 a 9,9). A diferença foi estatisticamente significativa, mas os autores consideram sua importância clínica incerta. Metade dos pacientes do grupo da reabilitação (50%) não precisou de cirurgia no período.

ACL SNNAP (Reino Unido). Estudou outro cenário: 316 pacientes com lesão não aguda e instabilidade persistente (o joelho "cede"). Aos 18 meses, o KOOS4 foi de 73,0 com cirurgia e 64,6 com reabilitação (diferença ajustada de 7,9; IC 95% de 2,5 a 13,2) a favor da cirurgia. Nesse estudo, 41% dos pacientes do grupo da reabilitação acabaram operados e 28% dos sorteados para cirurgia não chegaram a ser operados.

Como ler tudo isso: uma revisão Cochrane de 2016 concluiu que, para lesão aguda, a certeza da evidência era baixa e vinha de um único ensaio pequeno com adultos jovens (o KANON). Os ensaios posteriores acrescentam que a reabilitação primeiro evita a cirurgia em cerca de metade dos pacientes, mas que, quando o joelho continua instável, a cirurgia tende a dar melhor resultado.

Fonte: Frobell RB, et al. N Engl J Med. 2010;363(4):331-342 (doi:10.1056/NEJMoa0907797) · Frobell RB, et al. BMJ. 2013;346:f232 (doi:10.1136/bmj.f232) · Reijman M, et al. BMJ. 2021;372:n375 (doi:10.1136/bmj.n375) · Beard DJ, et al. Lancet. 2022;400(10352):605-615 (doi:10.1016/S0140-6736(22)01424-6) · Monk AP, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2016;4(4):CD011166 (doi:10.1002/14651858.CD011166.pub2).
Evidência 2 — voltar ao esporte: nem todos voltam ao nível anterior, e voltar cedo se associa a mais relesão

Uma revisão com metanálise de 69 estudos (7.556 participantes) mostrou que, depois da reconstrução, em média 81% voltaram a algum esporte, 65% voltaram ao nível que praticavam antes da lesão e 55% voltaram ao esporte competitivo.

O risco de uma nova ruptura de LCA (no mesmo joelho ou no outro) também é relevante. Numa metanálise de 19 estudos, ele foi de 15% no total, 21% em pacientes com menos de 25 anos e 23% em atletas com menos de 25 anos que voltaram ao esporte.

Numa coorte de 106 pacientes que praticavam esportes de pivô, acompanhada por 2 anos, quem voltou a esportes de alto risco (nível I) teve taxa de nova lesão 4,32 vezes maior do que quem não voltou. Cada mês de espera até o 9º mês após a cirurgia reduziu a taxa de relesão em 51%, sem ganho adicional depois disso. Quem tinha força de quadríceps mais simétrica antes de voltar teve menos relesões. Entre os que não passaram nos critérios (mais de 90% nos testes de força e de salto), 38,2% tiveram nova lesão contra 5,6% dos que passaram; essa diferença, porém, não atingiu significância estatística (p = 0,075).

Limites: o último estudo é observacional e pequeno, então mostra associação, não prova que esperar ou usar os critérios cause a redução. Um consenso de especialistas de 2016 resume que a evidência para orientar a decisão de voltar ao esporte é escassa e que essa decisão deve ser tratada como um processo gradual, junto com a reabilitação.

Fonte: Ardern CL, et al. Br J Sports Med. 2014;48(21):1543-1552 (doi:10.1136/bjsports-2013-093398) · Wiggins AJ, et al. Am J Sports Med. 2016;44(7):1861-1876 (doi:10.1177/0363546515621554) · Grindem H, et al. Br J Sports Med. 2016;50(13):804-808 (doi:10.1136/bjsports-2016-096031) · Ardern CL, et al. Br J Sports Med. 2016;50(14):853-864 (doi:10.1136/bjsports-2016-096278).

Quem precisa de cirurgia?

A decisão é individualizada e compartilhada com o paciente. Os ensaios acima comparam estratégias de tratamento; não testaram, um a um, os fatores abaixo, que refletem a prática clínica. Costumam pesar a favor da reconstrução:

Costumam pesar a favor de começar pela reabilitação:

Pré-reabilitação: antes de operar, preparar

A pré-reabilitação são exercícios feitos antes da cirurgia para recuperar força, movimento e controle do joelho. A evidência é limitada: uma revisão sistemática encontrou apenas 3 ensaios randomizados, todos com alto risco de viés, com programas de 3 a 6 semanas. Eles indicam um pequeno benefício na força do quadríceps e nos testes de salto em 1 perna 3 meses após a cirurgia, com certeza muito baixa. Não há consenso sobre conteúdo, frequência e duração ideais, e nenhum ensaio avaliou o retorno ao esporte.

Um estudo de coorte com 60 pacientes também observou que quem chegava à cirurgia com déficit de força do quadríceps maior que 20% em relação ao outro joelho tinha déficits persistentes 2 anos depois. Por ser observacional, ele sugere um possível benefício de ganhar força antes de operar, mas não prova que a pré-reabilitação mude o resultado.

⚠️ Quando buscar avaliação de urgência

Procure avaliação ortopédica com urgência se após trauma no joelho houver:
  • Inchaço rápido (dentro de horas) — hemartrose, suspeita de ruptura de LCA ou fratura
  • Deformidade visível ou impossibilidade de apoiar o peso
  • Joelho travado em flexão (não consegue estender completamente) — possível fragmento de menisco preso

Em caso de emergência, ligue SAMU 192. Fora de uma emergência, fale com a ou agende uma avaliação.

Suspeita de lesão de LCA?

Uma avaliação ortopédica define se há ruptura, se há lesões associadas e qual é a melhor estratégia — cirúrgica ou conservadora — para o seu caso.

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Vídeo sobre o tema

Lesão do ligamento do joelho

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Referências científicas

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual.